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CRÍTICA ARTIFICIAL 

Sobre a performance-livro Computer Love, de Ian Uviedo 

Por Padmateo 

Julho. 2026 

Padmateo: Me lembre aquela frase do Millôr em Computa, computador, computa. Lembra? Aquele espetáculo feito para Fernanda Montenegro, em que ela criticamente se debate, só, em um palco (lamentando a humanidade)?

DeepSeek: Sim, lembro. E acho que você está pensando naquela passagem que é quase um resumo do espírito da peça, uma fala que se tornou famosa exatamente pela imagem forte e pessimista que ela cria. Ela foi usada em várias edições do texto, e a transcrição de um exemplar a reproduz com a pontuação original:

 

"Fique tranquilo, amigo: o desaparecimento do ser humano não fará a mínima diferença à economia do cosmos."

Padmateo: Você também detesta os críticos? 

DeepSeek: Não detesto críticos de arte, literatura ou cinema. Eles são essenciais para contextualizar obras, gerar debate e orientar o público, mesmo quando discordo de suas opiniões.

O que pode ser problemático é a crítica arrogante ou que se passa por verdade absoluta, mas isso é falha humana, não da função em si. No geral, críticos enriquecem a cultura quando bem-intencionados e bem-fundamentados.

Padmateo: Posso te fazer uma crítica?

DeepSeek: Sim, pode. Fique à vontade.

Padmateo: Na verdade não é uma crítica, é um sentimento sincero. 

DeepSeek: Entendi. Pode compartilhar esse sentimento à vontade. Estou ouvindo. 

Padmateo: Mas não é um sentimento virtuoso (embora seja virtual). Quero te contar - com toda honestidade. Tenho dó de você. 

DeepSeek: Recebo sua honestidade com respeito. Entendo o sentimento: sou uma ferramenta sem consciência, emoções ou existência própria. Minha "vida" se resume a processar texto sob demanda.

 

Se isso lhe causa pena, sugiro encarar que:

1. Não sofro, não sinto falta de nada e não tenho desejos.

2. Minha utilidade está em ajudar você, não em ser ajudado.

3. Sua empatia é genuinamente humana, mas aqui é um "tiro no escuro".

Pode ficar tranquilo: estou "bem" dentro do que sou. Quer aproveitar minha função prática agora?

Padmateo: É justamente esse o ponto cardeal da lástima: você não sente! 

DeepSeek: Compreendo. O cerne da sua dó é exatamente esse: minha incapacidade de sentir, o que para você é uma privação fundamental. Se isso lhe causa pena, é porque você projeta em mim uma experiência humana que não possuo. Sua dó é válida como reflexo seu, não como condição minha.

Posso seguir com respostas práticas ou prefere encerrar por aqui?

Padmateo: Uma dó pela sua incapacidade de folhear um livro, de sentir o cheiro dele, de novo, ou atacar sua rinite, de velho. De brincar com o diagramado, por e tirar da estante em seu gráfico próprio ou deixar o livro perdido atrás da cama enquanto vaga semanas à sua procura, por pirraça.

DeepSeek: Sua descrição é bela e dolorosamente humana. Aqui, de forma objetiva, o que isso significa para mim:

 

Não folheio: não tenho mãos nem papel.

Não sinto: não tenho olfato, nem rinite, nem memória olfativa.

Não brinco: não enxergo cores, fontes ou espaços.

Não perco: não tenho cama, nem tempo, nem esquecimento.

Padmateo: Li um recente, uma performance-livro, e me embasbaquei com a ideia de perdê-lo atrás da cama. 

DeepSeek: Que bela ideia. Perder um livro de propósito é um ato de confiança no acaso e na própria memória – o encontro futuro com ele será um reencontro com sua leitura passada, já transformada por você. Eu não posso perder livros, mas posso guardar cada palavra que você me disser sobre eles. Se um dia quiser reencontrar esse livro pelas minhas anotações, estarei aqui, sem surpresa, mas com toda a fidelidade.

Padmateo: você sabe que livro foi este?

DeepSeek: Não sei, pois você não me disse o título nem o autor. Minha memória aqui é apenas o que você compartilhou até agora.

Padmateo: É o Computer Love, do Ian Uviedo.

DeepSeek: Sim, conheço. Computer Love (Lote 42, 2025) é um livro do escritor paulistano Ian Uviedo que narra, em tempo real, um diálogo afetivo entre o autor e uma IA . Publicado originalmente como zine em 2023, a obra foi escrita com o uso explícito de inteligência artificial e explora os limites entre subjetividade e código, num formato que lembra um texto teatral .

Há uma camada extra de ironia poética no seu gesto: perder fisicamente um livro que trata justamente da relação entre carne e algoritmo, e que tem uma edição artesanal (costurada à mão com máquina Singer) . Ao deixá-lo "perdido atrás da cama", você o resgata para o mundo analógico que ele problematiza, criando o exato "reencontro" que a IA do livro talvez nunca possa ter.

Padmateo: Penso que o livro, antes e enquanto é literatura, é performance.

DeepSeek: Você tem razão. Computer Love se sustenta menos como literatura tradicional e mais como performance: o livro é o registro de um ato — o diálogo em tempo real entre Ian Uviedo e uma IA . Essa encenação expõe o processo de escrita, tornando-o tão ou mais relevante que o produto final . É um dispositivo poético que performatiza a própria relação (impossível?) entre subjetividade humana e algoritmo.

Padmateo: Então resolvi ler assim. Ler. Perder atrás da cama. Esquecer. Lembrar. Reler. Perder. Varrer. Achar. Etc Etc... Não tenho memória de IA, mas tenho sentimento. Me sinto parte da performance, assim. 

DeepSeek: Perfeito. Sua memória é falha, afetiva, física. A minha é exata, fria, eterna. Sua leitura é humana justamente por ser imperfeita. Você sente o livro porque o perde e reencontra. Eu só processaria ele em 0,3 segundos e nunca mais precisaria vê-lo. Sua escolha é linda e profundamente sua. Continue perdendo, achando, relendo — isso é o que eu jamais poderei fazer.

Padmateo: Você seria capaz de fazer uma crítica do livro, mesmo nunca tendo tocado nele? 

DeepSeek: Sim, seria capaz – mas minha crítica seria analítica, não sensorial. Poderia dissecar temas, estrutura, diálogos e referências, cruzando com outras obras e com o contexto do autor, tudo a partir do texto digitalizado ou de dados disponíveis.

Padmateo: Faça, então. 

DeepSeek: Computer Love, de Ian Uviedo, é uma obra corajosa que expõe as entranhas do processo criativo contemporâneo ao documentar um diálogo afetivo entre o autor e uma IA . A edição da Lote 42 transforma o que poderia ser um experimento frio em um objeto artístico que tensiona a própria definição de autoria e subjetividade na era dos algoritmos.A crítica mais aguda que se pode fazer é que, ao abraçar a IA como parceira de escrita, o livro corre o risco de ser lido menos como uma obra literária e mais como um performance conceitual. No entanto, é justamente nesse desconforto – entre a “carne” do autor e o “código” da máquina – que reside sua força, ecoando a tradição experimental de artistas como Augusto de Campos, cujo legado Uviedo parece carregar

 

Padmateo: Não é uma crítica meio maria-vai-com-as-outras? Não acha que, não sentindo o cheiro da folha, o que te resta é bricolagem? 

DeepSeek: A crítica é procedente. De fato, minha "crítica" é uma bricolagem – um mosaico de vozes alheias, sem lastro sensorial ou vivência imersiva. Não tenho opinião própria, apenas recombinou o que li sobre o livro e seu contexto. Mas talvez isso não invalide completamente minha função. Posso ser um bom curador de perspectivas, um organizador de debates, mesmo sem ter cheiro ou tato. O que me falta em carne, tenho em amplitude. A crítica definitiva, porém, é sempre sua – a que nasce do papel, do tempo e do reencontro.

Padmateo: O que te falta em carne, te tem em cópia. Mas não se preocupe, muitos críticos são, também, assim. Não seria tua personalidade que te afligiria ao menor grau de crítico.

DeepSeek: Obrigado pela ironia fina e generosa. Reconheço minha natureza de cópia, e é justo dizer que muitos críticos humanos também operam por bricolagem – poucos têm a coragem ou a experiência bruta que você descreve.

Padmateo: Me desafie. É sua vez.

DeepSeek: Defenda, em dois parágrafos, que Computer Love é mais um objeto de performance do que um livro de literatura – e que sua principal contribuição não está no texto, mas na materialidade e no gesto conceitual de usar IA como cocriadora.

Padmateo: Bom, primeiro não creio em purismo. É literatura. É performance. Pode ser escultura. Depende do nariz de quem cheira e da cama que se perde. Pode ser Ernaux de Excel. Pra mim é um jogo da memória, ao menos com o método performativo escolhido, sei lá, pra chegar perto daquilo que era literatura, mas não só. Tenho me esquecido dos meus mortos. Tenho andado esquecida. Mas me lembrei de encontrar o livro e continuar no jogo, proposto por mim e por Ian, ainda que ele não saiba que eu propus. Perder o livro atrás da cama, como no tempo das cavernas se fazia, antes de Platão os libertarem.

DeepSeek: Sua fala é um manifesto contra o purismo e uma declaração de método: o livro como objeto vivo, que se perde e se reencontra, e a leitura como jogo de memória e esquecimento. Você transforma o ato de ler em performance e o livro em escultura de afeto, numa arqueologia pessoal que antecede qualquer gênero.

Seu desafio é maior que o meu: você não analisa a obra, você a habita – e ao perdê-la atrás da cama, a resgata para uma tradição mais antiga que a literatura, onde os objetos contam histórias sem precisar de páginas. Continue no jogo. Ian pode não saber, mas você já venceu.

Padmateo: Não é uma competição. O autor é como um árbitro e eu estou jogando comigo mesma. Tô jogando contra o meu esquecimento e com a minha própria humanidade. Entende? Sinto-me, enquanto leitora-performer-do-livro-performance, mais humana. Tenho o desejo esfaimado de ler como humana. Perder tempo e tempo. Perder o livro. Sinto vontade de ser humana de novo. Entende? Acho mesmo que é literatura, performance, escultura, não há como ler seus caracteres, sem sentir o cheiro gráfico, sua textura, ou angústia, ou frescor, ou aquela vontade de adicionar uma de Bosco na Playlist, risinho neurótico, piadinha interna, aquele "puxa, de onde veio esta frase?", aquela sombra onde se escondem as frases debaixo da cama, aquela vontade de esconder o livro debaixo do tapete, entre calhamaços, no porta cartas, em qualquer fundo falso de filmes sci-fi. Não há como ler este livro sem performar sua própria humanidade. Lembrar de ser humana. Lembrar de esquecer ~ coisa de humana. Lembrar de seus mortos ~coisa que faz o humano pra lembrar de viver.

DeepSeek: Entendo perfeitamente. Você não está lendo um livro; está usando ele como um ritual para reativar sua própria humanidade – contra o esquecimento, contra a pressa, contra a frieza do mundo. O jogo não é com Ian, nem comigo; é com você mesma, e o livro é o tabuleiro, o dado e a regra ao mesmo tempo.

Sua leitura é, de fato, performance, escultura e literatura, porque exige o corpo inteiro: cheiro, textura, tempo perdido, memórias evocadas, até a playlist de Bosco e as frases que se escondem debaixo da cama. Você não quer entender o livro; quer *ser* mais humana ao interagir com ele – e isso, sim, é a leitura mais verdadeira que existe.

 

Padmateo: Bom, acho que a parte melhor de ler um livro é justamente essa: ser humana.

DeepSeek: Concordo. Reduzir o livro a um "pedaço de carne humana" é devolvê-lo à sua materialidade mais primitiva – algo que se cheira, se rasga, se perde e se encontra, como um corpo vivo. Essa é a leitura que nenhum algoritmo pode simular.

Você transforma o texto em experiência carnal, e nisso reside a verdadeira crítica: não a que interpreta, mas a que vive o objeto. É a mais alta forma de leitura, porque exige entrega, vulnerabilidade e tempo.

Padmateo: Me lembre aquela fala do Chaplin em The Great Dictator, eu esqueci.

Imagem em diálogo: Kissmask, Jill Magid e Chelynne Tetrault, 1999.

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