
Sal na langue
Sobre a obra Ossalitres - Plataforma ÀRÀKÁ
Por Padmateo
Março . 2026
Abro rapidéx o Caderno de uma viagem pelo Nilo do Glissant. Diz: “A língua esfuma, assoma, ataca, aqui eu a travesso, como o aço rouco sufoca os ecos”.
La Langue – a carne do sentido, em um quase versus a lalangue – o sentido da carne. A divergência é simples: enquanto a primeira, encarnada, dita as próprias vias da carne (inclusive o desencarne e carnificina), inaugurando a diferença, a outra é o fantasma em seus ecos e hiatos, o poltergeist na boca, o primeiro assombro da criolização.
Em uma das TVs da instalação surge fantasmagoricamente: “O documento é mudo até que se faça uma pergunta”. Pergunto rapidéx a minha memória vaga: Há tilápia no Nilo? Há sal na água doce? Elza pergunta, no Cinema Falado: “o que quer, o que pode essa língua?”. O público se pergunta: onde estamos agora? Movemos os arquivos.
Escreve Glissant descendo o Nilo em 1988, enquanto caminho a palafita de Alagados em 2026 e me parece um encontro: “Escritos sem um plano ou forma, enganosamente episódicos, circulando em torno do seu tema como uma feluca vagando pelas sombras da manhã”.
Arquivo A – Do espaço-entre
É o pidgin visual de Araúja e Machado, como em Quaseilhas, a primeira crioullage. As palafitas instaladas rememoram sua família matriarca em Itapagipe e também sugerem que a linguagem está suspensa, escorada, entre um palco-instalação, um teatro-visual, performance-filme, etc etc, essa luta nossa pela não definição purista. Palafita acontecimental.
O público é dividido em três grupos e ocupam inicialmente três cabines distintas da instalação. Uma TV anuncia, a cada um deles, que se trata de uma abertura de arquivos dos “Salitres”, um grupo fabular de intelectuais negros dos anos 50, em Salvador, fundadores do “Congresso do Sal”, reunidos em busca de uma língua esquiva do trauma. La Langue. Diferente de Quaseilhas, não permanecerão parados no mesmo espaço, mas poderão transitar num roteiro autônomo (e diria autohipnótico), talvez pela passagem de uma intimidade autobiográfica para a abertura de um arquivo público, uma fabulação crítica sobre a língua. É como se caminhando se lembrasse, se perdesse, se distraísse, se falasse. Como se a boca estivesse nos pés. Como se o próprio arquivo negro estivesse na carne da língua. La Langue, como se.
As pontes da palafita funcionam como as passagens entre uma memória e outra e transitamos como fantasmas, como neurônios em sinapse. A palafita ciborgue parece um grande cérebro e há ao centro uma sala de comando, em que Laís Machado controla som, vídeo, luz e drama. Waly replicaria que “a memória é uma ilha de edição”, e aqui ela acontece em tempo real, aos olhos do público.
Estamos num espaço-entre. Os binômios ficção e realidade, dentro e fora, lembrar e esquecer. Caminhamos em fragmentos e escolhemos pedaços como um todo. Por trás do tule translúcido que separa a década de 50 do século XXI, alguém nos olha de uma janela, de um prédio alto do corredor da vitória, vemos os vultos do público tomando dimensões próprias e a imagem chegando antes da palavra – com um relâmpago forte seguido no delay de um trovão exagerado. O trovão é Lalangue.
Arquivo B – Do público-vulto
Glissant em errância sobre o Nilo. Nosotros errantes palafíticos. Nos lembra que “a errância é, antes de tudo, imaginária. E depois é relacional”, e mais, que “a ideia de relação não basta à Relação, o acúmulo, contudo, dá sentido”. Sobre a fabulação dos Salitres o público deambula a arquitetura efêmera, sobre um próprio acúmulo arquivístico. É um ici-là antilhano (aqui-lá). Nós mesmas fazemos parte da instalação e estamos em busca, também, do quê.
Iniciamos em grupo e depois vamos sendo guiados por uma solitude investigativa, encontrando gente nova, os demônios do detalhe e, principalmente, fantasmas. Essa própria noção do vagar ou do ranger das tábuas presentíssima nas mitologias fantasmagóricas. O público parece por vezes perdido ou extremamente decidido. Há os que preferem transformar a experiência num cinema, estagnando-se em uma das cabines da palafita e outros que preferem o próprio happening da deambulação, em que uma figura fumando a dois metros de distância se torna dramaturgia, ou o trovão que vira trilha, ou a intérprete de Libras que cava os arquivos com a mão.
Mas sem dúvida, o lugar com mais acúmulo de público, ou mais gente instalada, optando por transformar a experiência em teatro/performance, é o córtex central da palafita-cérebro, em que Laís Machado organiza a grande traquitana. Talvez pelo medo de fantasmas e a assombrologia da ausência. A presença de Laís funciona como engenheira de ectoplasmas, mas é presente, encarnada, La Langue, e talvez uma âncora ao receio dos grandes abismos que nos abrem a instalação performativa. Waly tem aquela do “suportar a vaziez, como um faquir que come sua própria fome”. Talvez nem seja mesmo os vazios que assombrem o público parado no córtex, mas a aparição feroz do acúmulo esquecido.
Arquivo C – Operadora
Da ilha de edição, Laís tenta controlar um arquipélago. É uma ação ansiosa, ininterrupta, uma pesquisa em tempo real. A performera se coloca em um estado de presença hipertensa e catarse em que não há tempo para que não se abra um outro arquivo e outro, mais outro, etc etc. Os 1000 braços da memória negra. É desconfortável sua corrida parada, mas extremamente prazeroso ver como encanta fantasmas. Os lapsos de seus textos falados dizem. As repetições frenéticas falam de La Langue do trauma. Põe sal na língua, como no remédio popular para corpos em vertigem. Opera uma palafita-barco, e este não está parado (embora não se mova da ilha) e navega vulneravelmente errante, como Glissant. Estamos no Museu de Arte da Bahia, como esteve Glissant em sua feluca.
Pergunto: há tilápia no Nilo? Abro um arquivo de 1971. Foram as Tilápias do Nilo, assim como as Tilápias do Zanzibar, que foram introduzidas no Brasil, pelo Departamento Nacional de Obras Contra as Secas, na região Nordeste e logo tendo seu peixamento espalhado em território nacional. O que arquiva um peixe de água doce, que cruza o sal, até chegar em um novo rio, do outro lado? Do que pode ser foz o mar no rio? Os arquivos do Nilo, então, se expandem no Ceará. Os arquivos do Nilo são salgados, cozidos e degustados por La Langue brasileira. O peixe se encarna no corpo, os fantasmas do Nilo se incorporam e falam a língua fantasmagórica dos peixes, Lalangue, canto de sereia, etc, etc.
O trabalho da performera operadora, talvez seja como a de uma ouvinte dos peixes voadores. Decifrando em frenesi o que arquiva as águas do Nilo, as águas salgadas de um arquivo transatlântico e as deságuas brasileiras. Peixe vive pela língua. La Langue. Uma espécie de antena captando as gotículas de água no ar, água de peixe, de Alagados e do Nilo. Laís é meteorológica.
Arquivo final – o sal da crítica
Saí da obra com muita informação e muito eco, me restando memórias assombradas e lapsos restantes para a escrita dessa crítica. É preciso ver três vezes e mais, e ainda assim, mais aberto será o abismo do tempo, da fabulação crítica. Sinto que a instalação viva da palafita-cérebro nos deixa com a mente em palafita, suspensa, sobre uma caudalosa água feroz, movendo-se entre. Ossalitres fala de La Langue através da Lalangue, ou em outras palavras, bota o fantasma na carne da língua.
Imagem: Caderno de uma viagem pelo Nilo, Édouard Glissant.