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NTANGA

Sobre o espetáculo NTANGA , de Inaê Moreira, Júlia Lima e Danielli Mendes.

Por Diego Di Mira 

Agosto. 2026 

A ancestralidade não é algo pretérito, encerrado num passado com marcos temporais definitivos. Ela é sempre atualizada por uma ideia de origem, à qual se deve referir um(a) mukongo (pessoa kongo), uma vez dado o sentido (necessariamente, coletivo) a sua própria vida.

 O ku mpemba, insondável mundo espiritual, é um espaço-tempo de onde partem os referenciais do todo vivenciado e imaginável, na perspectiva bakongo, mas é, a cada devir, a proximidade do último porvir experienciado no ku nseke, mundo físico.

No ku mpemba, locus ancestral, por excelência, encontram-se, conforme desenha o Dikenga dia Kongo (cosmograma Kongo), forçosamente, os estágios musoni e luvemba de qualquer ser existente, ou seja, o início invisível e o fim visível, de tudo o que há e pode ser capturado pela experiência humana bakongo. (Santana, 2024, p.154)

 

Sábado 08/08/2026, grande São Paulo, cheguei correndo a sessão era às 19h e eu saí do Jabaquara já atrasada às 17h, corri, ao som de Luedji, Jadsa e eu no big buraco antes do mundo acabar num apocalipse pessoal. Abigail Mariano só chegou depois, já ia pelas 19:30,. Toda uma integração para chegar no Sesc Pompeia, eu saí da linha 1 azul, Jabaquara, desci na Sé pra pegar a linha vermelha, mais não fui até a Barra Funda, peguei um carro de app que me custou 30 conto, em vão, pois daria o mesmo tempo, caso eu pegasse o trem que era o que deveria ter feito, feito-desfeito.

Foi Abigail, amiga conterrânea de Salvador, de aventuras monxtruosas, ela que fez o convite pelo ZAP: - bora assistir esse evento massa no Sesc Pompeia: NTANGA, um card do Instagram, uma fotografia, três figuras de cabelos trançados com penteados  que evocam costumes anacrônicos da ancestralidade, as mãos azuis turquesas, em contraste com suas peles negras, na altura do pescoço seguravam máscaras igualmente azuis, porém em tom mais petróleo desbotado, todos os olhos negros, fixam o horizonte neutro, cansando o mistério do outro lado.

Consegui os ingressos com Will, um amigo franco-beninense de longa data, pro sábado, mas chegamos atrasadas, não conseguimos entrar. Conseguimos trocar o ingresso pro dia seguinte. Tomamos uma cerveja ali por perto e encontramos a Castiel Vitorino, que fez uma fala no final do espetáculo, motivo pelo qual também era interessante ir para aquela sessão, mas falar com ela foi um presente, sinto que algo nos conecta, nossas trajetórias e encontros na arte, Cachoeira, a Bahia de Tikal. O samba no outro bar aqueceu os encontros, desfile de gente elegante e sincera, a beleza acompanhava aquela noite quente, mas fomos pra casa cedo, nos organizar pro dia seguinte, pra conseguir assistir ao espetáculo.

Domingo, 09/08/2026, Abigail adiantou o lado, saiu às 15:51 e eu já estava atrasada, peguei o metrô às 16h, e a sessão era às 17h, mas agora eu sabia o trajeto, corri, corri, assim que cheguei na Estação Água Branca, ainda tocava Jadsa que se somou a Tiganá Santana e seu Mateus Aleluia. Abigail mandou uma foto da fila se preparando para entrar, peguei impulso e corri pelas ruas que convergiam num show de rock tradicional - bate cabeça - subi as escadarias que cortava o caminho até o complexo cultural arquitetado por Lina Bo Bardi, lembrei que há mais de um ano atrás estreava a exposição da instalação audiovisual: "Isaac Julien: Lina Bo Bardi — um maravilhoso emaranhado" , direção de Isaac Julien estrelando Fernanda Montenegro e Fernanda Torres interpretando a Lina, onde integro a obra com uma performance que intimamente chamo de Ajalá - fazedor de cabeças… A mente a mil, cheguei, em pleno pulmões - alívio - atrasou 5 min a entrada. Tempo de ver as pessoas na fila, encontrei conhecidos fazedores, respirei conterrânea.

Segundo os yoruba, “Ajalá, ‘o oleiro que faz cabeças’, no céu, é responsável pela criação do ori [cabeça interna ou ori-destino]. Após Orisanlá ter modelado os seres humanos [incluindo orí-cabeça], ele passa os modelos sem vida para Olodumarê, que, ao dar-lhes o émi, dá-lhes também sua força vital. Os seres humanos, assim criados, movem-se para a casa de Ajalá, que lhes dá um ori [destino].(...) De qualquer forma, quando Ajalá termina de moldar as cabeças, ele as coloca no depósito.(...) O ato de selecionar o orí [destino] na casa de Ajalá é reconhecido como livre-arbítrio (...) Para ambos, os bakongo e os yoruba, ao que tudo indica, à medida que se percorrem os caminhos existenciais terrestres, capturando-se e experienciando-se, racionalmente, o real, mais se pode experimentar a aproximação com o próprio destino, bem como com o que a vida e a sociedade da qual se faz parte requerem das individualidades, enquanto algo que as constitui. Alma-mente, que o distingue do resto das coisas da natureza [ma-bia-nsemono]. (Fu-Kiau, 2001, p. 70-1)

Ao entrar no teatro percebi, uma oferenda. Tratava-se de uma obra sacro?

  • Uma instalação - duas cordas penduradas com cabaças azuis - waji - lazuli, posições e localidades opostas, assim como duas outras porções amontoadas delas sob o chão;

  •  Instrumentos metálicos cor de cobre;

  • 2 montes de 1m, de carvão mineral; 

  • Tudo sob o linóleo preto quadrado; 

 

Duas pessoas orquestravam uma espécie de mesa de som numa das superfícies do quadrado. Sentei na arquibancada à direita oeste.

O sol em Leão;

A lua minguante em Câncer;

Há três dias do eclipse solar com o nascimento de uma lua nova em Leão;

O céu parece organizar uma nova era para os corpos terráqueos feito grande parte de água, a lua conduzia a maré vazante, uma festa de despedidas rumo à primavera.

Estávamos todas bem elegantes, a noite parecia mais fria que ontem, inverno em São Paulo.

O som aos poucos invade tridimensional, reverbera a gravidade de algo que vai acontecer.

Ohm…

A boca preta devorando a sala espelhada, e todos os espectros que ali habitavam. Sentei comportada, e todas as informações correndo na mente: trabalho, ensaio, dissertação, doutorado, editais, vagas de emprego, teste de publicidade. Notícias de mim enchiam e depositavam naquele Igba ( representação do corpo sagrado - portal que liga humano a sua divindade ancestral) uma instalação de preces para fartura e abundância, caminhos abertos, tudo azul, azul - cor rara do poder sobre o próprio espírito, da limpeza alvejante descarrego, a cor mais quente do fogo, a forja, a lama, a alma, o céu, o mar, a nota azul na cabeça rondava as dúvidas daquela vida nova.

O som preparava o mistério: Acalme se, respire, receba, descruze as pernas, relaxe, receba a oferenda, entregue-se. Atenção. Escuro.

Três figuras adentram a sala com lanternas, clímax. Suspiravam ou cochichavam? Bruxas azuis desvendam, naquela sala: as materialidades, as energias, seus elementos. Aos poucos a luz geral abria ainda o espectro lunar. Suas vestes largas orientais pesavam a gravidade daquela ação e a modelagem distinta de cada figura figurino origami, as diferenciavam em características, hierarquias,  personalidades e faixa etária.

Fonte, nascente e rio

Lago, lagoa, pororoca

Mangue, maré, mar

A quantidade de partículas da massa infinita em fusão que permaneceram suspensas no espaço superior [mu luyalungunu] constituiu o que é conhecido, em linguagem humana, como sol, lua, estrelas [ntângu, ngônda, mbwetete], que são, na realidade, outros mundos. (Santana, 2024, p.23)

Peixes ou aves?

Estão rindo ou chorando?

Uma pintura de pigmento com acabamento fosco, pintam e bordam aquarelas, desenhos de carvão as cinzas.

Úteros férteis: a ponte, o portal, a fenda, o véu entre os detalhes de suas mãos e pés, bordando o espaço a energia dos universos cósmicos ali prontos para serem explorados na floresta em nós.

"Nkata ku mfînda i ntângu a bakulu ye sîmbi – O fardo da espiral (bobina) na floresta (mundo espiritual) representa o passado, o tempo dos ancestrais e gênios [Ntângu yankulu/tându kiankulu]. O segmento do sol nascente representa o tempo presente, cujo “n’tinu” (sîmbi) é “n’kam’a ntângu”, a barragem do tempo." (Fu-Kiau, 2001, p. 38)

Estamos no presente, mas apreciamos ali instantes do futuro: o tempo criando e recriando os mundos;

as mães;

as irmãs;

malungas;

uma sociedade secreta;

As mais antigas ou as mais novas de nós vibravam com segredos barulhentos.

Em cada um desses signos ou fatos cria-se, deste modo, um nó, uma cifra, através de que se poderia vislumbrar o tempo contínuo. Os nós (kolo) são o acesso ao sistema (kimpa/fu) cultural, natural e mesmo ontológico que os contém, se considerarmos que vetores de força como o tempo (kolo/ntangu/tandu), o universo (luyalungunu), uma sociedade (kanda) sejam manifestações sistêmicas por excelência. (Santana, 2024, p. 176)

Precisei escrever, mais antes precisei dançar, tímida aprendi a disciplina ensinada no espetáculo NTANGA, ávida, inclinada em minha poltrona, observava os detalhes dos Rastros deixados pelas dançarinas escritoras: Dirigido por Inaê Moreira, com co-criação de Júlia Lima e Danielli Mende, que no silêncio da boca cantavam mistérios incontáveis.

Vultos de uma irmandade que não sei quantos quilos de sal comeu, mais encomendavam uma boa morte. Ouvi o som de minha mãe regando as plantinhas no muro de alvenaria, cantarolando boca que usa a música de um rio chamado Una que fica no interior, do interior de Valença - Bahia - Gereba - Quebra - Machado, Orobó.

A cena era séria, quase sisuda, mas nela continha um abraço tenso, comprometido.

Os pássaros e os tijolos de cerâmicas, trabalhavam até tarde como se não fosse noite nem dia, estávamos dentro do sol ou no fundo do oceano, a kalunga em mim elaborando o luto num piscar de olhos, jamais tinha assistido uma novela tão bonita quanto aquela eu e minha mãe sentadinhas sem chorar, sem rir, hipnotizados pelas palavras invisíveis. A última vez que a vi assim foi no Terreiro Ici Mimó em Cachoeira, cercada de borboletas e búfalos, guardava como uma general uma fogueira de labaredas que tocavam o firmamento.

“(...) em uma das línguas bantu do Congo, o mesmo verbo, tanga,  designa os atos de escrever e de dançar, de cuja raiz deriva-se, ainda, o substantivo ntangu, uma das designações do tempo, uma correlação plurissignificativa, insinuando que a memória dos saberes inscreve-se, sem ilusórias hierarquias, tanto na letra caligrafada no papel, quanto no corpo em performance. Nessa perspectiva podemos pensar, afinal, que não existem culturas ágrafas, pois nem todas as sociedades confinam seus saberes apenas em livros, arquivos, museus e bibliotecas, mas resguardam, nutrem e veiculam seus repertórios em outros ambientes de memória, suas práticas performáticas“. Leda Martins, 2003, p. 64.

Quis desenhar, pintar, usar o carvão que a mim foi ofertado, uma benção, assim como as veste daquela do meio, já não estava mais nua, o presente me vestiu Baía de todos os santos, a nova roupa do imperador é azul jeans industrial, um servidor público que dança lagrimas de diamante e brilha, o bebê está curado graças as mandingas cênicas das bruxas azuis.

Escrever pode ser uma espécie de vingança, às vezes fico pensando sobre isso. Não sei se vingança, talvez desafio, um modo de ferir o silêncio imposto, ou ainda, executar um gesto de teimosa esperança. Gosto de dizer ainda que a escrita é para mim o movimento de dança-canto que o meu corpo não executa, é a senha pela qual eu acesso o mundo. (Evaristo, 2005, p.202)

Os dias Vingam em coreografias, o sol insistente na temperamental São paulo, raios Ultravioletas, as vezes nublada com ventos de 10 km/h rasgando frio, árvores centenárias Tupinambás balançam em seu balé, flutuam todas as bruxas azuis.

Escrevo: desenhos, pinturas, esculturas, fotos, filmes, coreografias, músicas, somos a inteligência artificial da natureza, impelidas por sua vontade, destruímos e construímos delicadezas intangíveis, desafiamos o destino de ser gente. Vingar, florescer azul, roxa amora, doce azeda umami.

Depois do espetáculo, saí embriagada, suspirado os mistérios, fomos pro bar do boto na Barra funda, Trans/mito, era aniversário de uma Amiga da Abigail, Iris, Isis, deusa,  o primeiro pedaço de seu bolo discurso foi para seu erê de Oxumarê: e  finalmente a serpente morde seu rabo. Feliz ano novo.

Tiganá Santana

Nkongo

Então estou crescendo

Nkongo ia Tukula
 

Eles colocaram uma lixeira

Vo tambikisa ndozi
 

À noite

Mu ku nseke

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