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QUANDO SE QUEIMA O CÉU DA LÍNGUA

Sobre o espetáculo "O céu da língua", de Gregório Duvivier e Luciana Paes 

Por Letícia Anjos 

Agosto. 2026 

Neste ensaio descobriremos os perigos da língua. Quando uma peça, de repente, ensaia  o mesmo roteiro de 1500 d.c, a sopa de letrinhas interrompe o falante, queimando-o a língua.  O Pretuguês, dessa vez fará esse Ajeum, nos mostrando que a palavra é sagrada na boca de  quem sabe conduzir o Ofó. Iremos traçar uma crítica a partir dos estudos de Lélia Gonzales e da peça “O céu da língua”, de Gregório Duvivier. Teatro e língua são artes vivas, portanto,  esse ensaio não tem preocupação alguma em aglomerar uma verdade absoluta, e sim manter  vivo um pensamento que também não pode ser enterrado.  

O espetáculo “O céu da língua” já reuniu mais de 300 mil espectadores no Brasil e no  exterior, foi considerado um dos maiores sucessos recentes do teatro brasileiro, fazendo  Gregório Duvivier conquistar o prêmio Bibi Ferreira 2025 de melhor ator pela montagem que  também venceu o prêmio do humor RJ 2026 nas categorias melhor texto e melhor espetáculo,  além de acumular indicações ao Shell e APTR.  

Fazer teatro no Brasil é uma transgressão diante das más condições encontradas nesse  cenário: remunerações ruins, dificuldade de subsídio, teatros sucateados, além da pouca  adesão da população por outros tantos motivos relacionados principalmente à raça, classe e  capital. Dessa maneira, quando vemos uma peça ser tão premiada, é de imediato uma alegria,  uma vitória para nós, amantes dessa arte. Porém há que se aprofundar pelas coxias e  caminhar nos bastidores. Há que se propor assistir ao espetáculo e analisar se a população  também é premiada nessa dinâmica de troca que o  palco propõe. Lá atrás nos propuseram uma troca bem desonesta, todos lembram da história  dos espelhos, não é? Nos roubaram e continuam nos roubando.  

Duvivier é um homem branco, cis e heteronormativo, sudestino, formado em letras  pela PUC- RJ. Durante sua peça, ele propõe uma história da língua e da linguagem envolvida  por humor, aquele humor do homem hétero. A história que Duvivier decide nos contar, se  inicia pelo latim e pelas viagens e roubos das línguas, pelas suas adaptações durante essas  viagens pela Europa e Américas. Sutilmente algumas críticas são colocadas em forma de  piada ao decorrer de sua obra e acredito que o que mais envolve o público é nossa maneira afetiva que ele demonstra carregar a linguagem. Todas nossas negações para afirmar, nossas  diversas formas de falar entre as regiões, nossas palavras inventadas cotidianamente, nossos  códigos linguísticos não verbais, ou seja, nossa maneira única de usar a língua e a linguagem  

para enviar mensagens e entendê-las ao nosso modo. O que incomoda profundamente é a  presença quase nula da influência das línguas africanas.  

Precisamos começar por onde tudo começou, não é Lélia? Nossa língua tão rica se  construiu a partir de violência, assédio e adaptação. Daremos o devido crédito às amas de  leite, mulheres negras, escravizadas, obrigadas a cuidar, alimentar e ensinar as crias dos  sinhôs e sinhás. Foi a partir daí que o português do colonizador se misturou às línguas  africanas e nasceu nosso português único entre os territórios colonizados pelos portugueses.  Ou melhor dizendo, nosso Pretuguês. Nosso jeito de falar, nossas palavras, nosso ritmo,  acima de tudo, tem influência majoritariamente nesse cruzamento cultural forçado. Seria  injusto demais não começarmos por aí.  

Duvivier decide pincelar sua peça com a influência do Quimbundo com  duas palavras: cafuné e muxoxo, lá pela metade de sua obra. Ainda nos obriga a ouvir que o  negro escravizado por não poder se rebelar, chega em terras brasileiras e dá um muxoxo. Esse  mesmo escravizado que foi precursor do primeiro Estado Livre que existiu em todo o  continente americano: A República Negra dos Palmares, onde havia efetiva harmonia racial e  se perpetuou como símbolo de grande resistência.  

Acontece que por aqui, continuam resistindo em nos contar a verdade, continuam  negando a origem das coisas, perpetuando a colonialidade do poder. Entre piadas com  conotação sexual, pau, cu e buceta, o entretenimento perfeito se forma em torno do riso e da  anestesia intelectual. A maior parte do público queria rir, por que questionar um lugar que é  para ser leve? É rindo, meus camaradas que digo: toda arte comunica. Gregório deveria saber  disso. E sabe.  

Não podemos mais sermos reféns de nós mesmos, digo, enquanto uma pessoa branca,  e digo para a branquitude. Porque foi ela que conduziu o show, a branquitude. Se não fosse  assim, a construção seguiria por outro caminho, mais múltiplo, mais nosso, mais coerente  com a verdadeira nacionalidade. 

Não é com o ego que pretendo construir diálogo, mas com o comprometimento da  alma, principalmente a do artista, que é capaz de conduzir outras almas consigo, com suas  ideias, com suas palavras e criações. Com isso, me pergunto e lhes pergunto se a santa  ignorância seria mesmo uma bênção.  

Talvez os jesuítas estejam ainda glorificando nossa reverência às bênçãos que se  apropriam do céu. Que roubam o espaço da liberdade. Talvez eles também estejam rindo,  junto com a plateia, da nossa falta de criticidade, e do túmulo ainda enviem cartas  expeditórias contando que está viva a colonização.  

Enquanto lemos suas cartas, deixamos de ler Lélia Gonzales, Beatriz Nascimento,  Cida Bento, Aníbal Quijano, Nêgo Bispo, Leda M. Martins e muitos outros e outras. E  perdemos também, dinheiro. Pois ali, juntinhos, chegaram modernidade, invenção da raça  (consequentemente do racismo) e o capital. Esse trio parada dura que até hoje faz algazarra.  

Enquanto o capital ainda gira em torno de quem conta a mesma história, quem vem  contracorrente encontra dificuldade até em produzir suas obras. Quer dizer, será que se nas  mãos daqueles que detém o poder do capital, estivessem também os livros de intelectuais que  pesquisaram e pesquisam seriamente a história da formação do nosso país, as questões de  raça e gênero, que trazem todas as encruzilhadas à tona, não daríamos passos para uma real  mudança social e subjetiva? De fato, os grandes acessos são passagem para uma única rota,  ser formado pela PUC-RJ não traria esses livros nas mãos, mas a busca pela mudança sim, a  possibilidade de usar o capital para se reinventar, sim. Acontece que por aí permanecemos  com um pacto profundo. Cida Bento já fez um favor de analisar essa forma subjetiva de se  relacionar que a branquitude tem. Pois talvez não seja falta de acesso, nem falta de  informação, mas falta de coragem.  

Ir contra a corrente requer, sobretudo, coragem. Coragem para ser criticado, para ter  acessos negados, para não ser bem-visto e não ser bem aceito, coragem para não lucrar tanto  assim, coragem para não agradar o público-alvo, as pessoas de classe média, a alta burguesia  que só quer rir e faz do risouma cortina para seus preconceitos, suas ignorâncias e suas  segregações. Coragem para usar de seus privilégios para implodir dinâmicas opressoras, para  sobretudo, influenciar uma parcela da população que só ouve e consome seus iguais. O que  seus iguais são capazes de fazer, hoje? 

Aqui faço como Ricardo Aleixo: “jogo palavra no vento e fico vendo ela voar… jogo  palavra no vento e fico vendo ela voar…” , esperando que em algum momento essas palavras  atravessem os ouvidos, causem tumulto, borbulhem os incômodos e transicionem as criações. 

Imagem em diálogo: Divulgação "O céu da língua" / Priscila Prade 

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