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MENOS IA, MAIS IYÁ

Sobre a exposição Bloco Afro Bankoma: 25 anos de existência e resistência 

Por Padmateo

Junho. 2026 

Voltei no moto-uber, de Lauro de Freitas, ecoando esta frase. Brincadeirinha sonora que a mente matuta e que parece reunir bem as ideias, agrupando-as num mantra lúdico. Tomei o metrô assim: menos IA, mais Iyá, menos IA, mais Iyá… espécie de trava-língua itinerante, riscando a cidade ao meio.

Rogério Félix, curadora da exposição e filha do Terreiro São Jorge Filho da Gomeia, nos alertou: "Todo terreiro também é um museu; aqui (onde a exposição ocorre) é o núcleo." Lembro-me automaticamente do museu Tremblement, de Glissant, pensando nas relações museais enquanto arquipélagos, e a fala da curadora as coloca em prática. O autor pensava o tremor como a possibilidade de uma impermanência, de possibilitar plurais relações e atravessamentos entre artistas e memórias, numa espécie de mondialité, um cosmopolitismo que mantém sua identidade. Mas não é óbvio, então, que os museus ditos Museus devem aprender com a musealidade tremblement de um terreiro? Tudo ali está no lugar: a matéria, o invisível, os mariwôs, os corpos humanos — existe ali um micromacrocosmo da memória, um arquipélago; há Orixás e Caboclos, África e Brasil.

Enquanto vemos a exposição com a célebre guiança de Rogério, parte da família prepara decorações e brindes para o Arraiá Afro Bankoma e a quadrilha junina das crianças; parte se encontra tecendo na sala de tecelagem, que também funciona como ateliê e sala de aula para oficinas e cursos; a Mameto realiza alguns ritos sagrados em uma parte reservada do espaço; e algumas filhas vendem fogos de artifício, na porta de entrada, para a trezena de Santo Antônio. Há ali o arquipélago, e todas as funções fazem prosperar a coletividade do Terreiro, do Museu, da Escola.

A referida exposição, no núcleo do museu-terreiro, trata dos 25 anos do Bloco Afro Bankoma, do banto "reunião de pessoas", como uma proposta presenteada pelo encantado Martim Pescador. Seu próprio nascimento traz em seu cerne uma ideia museal itinerante: a de levar para a avenida os saberes comunitários e as memórias construídas dentro do próprio terreiro. Abram alas: um museu vivo está dançando.

O bloco, que a princípio era gerido pelo Tata Kasutemi, hoje é organizado pela Mameto Kamurici. Esta perpassa desde a escolha temática a ser desfilada na avenida até os primeiros rabiscos da estampa dos figurinos do bloco, digitalizados pela designer Zita Rocha (até 2020) e, hoje, por Lumena Adad, filha da casa.

Na exposição, os tecidos coloridos em bastidores, permeados por simbologias da cultura afro-brasileira, dividem espaço com adereços feitos de palha-da-costa, penas, búzios, miçangas e lantejoulas. Um manequim imponente, ao centro do espaço, traja a roupa da Rainha do Bloco, com uma coroa armada. Instrumentos musicais confluem na exposição com fotografias de diversos períodos do bloco, dos bastidores à avenida, imagens da Mameto, do Tata Jander, da Iyá Thiffany Odara e de outras tantas figuras importantes para a história do candomblé, trançadas pela expografia de Ana Caroline Neves, também filha da casa.

Em uma das salas reservadas do núcleo, reverenciam-se os ancestrais encantados da casa. Fotografias de egunguns e de Mãe Mirinha de Portão à fotografia central de Joãozinho da Gomeia (Tata Londirá). A sala funciona como um corredor da memória; Chegamos nela após a apreciação da maior parte da exposição, como se ela dissesse, nas entrelinhas: estes ancestrais estão antes e depois. O próprio Joãozinho da Gomeia foi um dos responsáveis pela confluência entre o culto e a arte, somando, em um só corpo, liderança espiritual, coreografia, figurino e performance. A versatilidade e a interdisciplinaridade são estratégias ancestrais de sobrevivência e de liberdade de expressão.

É a versatilidade que também nos assombra ao ver a exposição. Como é possível um mesmo espaço conter tantos arquipélagos, tantas raízes e copas? Ao entrar na exposição e ouvir a pesquisa apaixonada e minuciosa da curadora, parece-nos que a utopia é possível; ganha-se um tanto mais de fé na coletividade. Ali, um museu-terreiro, um terreiro-escola, um lugar da tecelagem de saberes e culturas, um pontapé do carnaval, um banquete a Lauro de Freitas, à Bahia e à cultura brasileira, que extrapolam os muros do próprio espaço, irrompem na avenida com suas próprias mãos e seu labor festivo. Um monumento político vivo, novo a cada ano, refeito com a delicadeza de cada mão, sob a batuta da Mameto.

Ouvi de alguém, alguma vez: é feito por IA, Inteligência Ancestral. Volto para Salvador cantarolando o mantra na mente, como se minha cabeça batucasse um carnaval no auge junino:

Mais Iyá. Mais Iyá. Mais Iyá.

Fotografia a capa: Mãe Mirinha de Portão 

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