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A NOSSA AMIGA PRETINHA 

Sobre o filme "Nosso segredo", de Grace Passô, 2026 

Por Gustavo Araújo 

Setembro. 2026 

No dia 28 de agosto, estava na UFBA passando o tempo após a minha aula, e João me manda uma mensagem perguntando se gostaria de ir ao cinema assistir à estreia de Nosso Segredo. Fui, como sempre vou, sem expectativas, mas já sabendo que seria algo pelo menos bom, porque tem a Grace Passô (depois que vi Vaga Carne e A Temporada, me apaixonei por ela).

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Compramos o ingresso e chegamos com 15 minutos de atraso, mas ótimo, porque o filme tinha ACABADO de começar. E, quando ele terminou, a gente se olhou e eu perguntei: “Sério que era um HIPOPÓTAMO???????????”  foi isso que mais me marcou no filme. De como, dentro de toda a atmosfera de luto, distanciamento, dores e tentativas de fuga, Grace conseguiu introduzir um animal de grande porte de uma forma sutil, que não fosse cômica e nem que te faça pensar por muito tempo: “Meu Deus, o que é isso que acabei de ver???”.

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A metáfora de Pretinha sobre o luto já está dada a partir do momento em que Tutu vai apresentar sua amiga para Gilson e temos o segundo contato com o andar de cima da casa e o espaço ainda está exatamente da forma que o pai deixou antes de falecer. Ou seja, a obra nunca será finalizada, pois a finalização dela se traduziria enquanto o estágio da aceitação do luto e a família não quer aceitar o luto, até porque não existe manual de instruções de como lidar com a morte de alguém, em todos os aspectos possíveis.

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Outro ponto do filme que cabe falar aqui é da relação de segredo entre Tutu e Anamélia. Ela é a única personagem que vê Pretinha antes de todos e aceita (como todos aceitaram no final), e não por ser “brincadeira de criança”, mas por ela perceber que a existência de Pretinha não é só de Tutu, e sim de todos, e é apenas uma questão de tempo até todos perceberem. E aí que mora uma das grandes belezas do filme: uma criança tem uma amizade com um hipopótamo fêmea que mora no andar de cima da sua casa e é isso. Claramente tem uma relação fantasiosa, mas isso não distancia a camada da realidade, até porque o que seria da realidade sem um pouco de fantasia?

 

Em Vaga Carne, Grace utiliza da ausência para tecer críticas e pensamentos sobre a presença, e podemos ver essa relação em Nosso Segredo, pois, em uma entrevista dada ao Canal Mulher no Cinema, Grace fala: “sempre uma conversa das frestas. Por onde vaza? Por onde que vazava o luto?”. A casa está estabelecida enquanto um personagem que emana a ausência e manipula a presença. A voz que toma conta do corpo de Grace, em Nosso Segredo, é a manutenção de Pretinha nessa casa-personagem. A casa, embora seja imóvel materialmente, se movimenta na direção do luto coletivo, tanto que a casa colapsa quando Pretinha é “descoberta”, ficando evidente que a casa-personagem é o grande medidor de humor do filme, o que é uma sacada muito inteligente de Grace. Ela desloca o ponto de tensão para algo que, desde o início do filme, nos é apresentado. Ou seja, a ausência e a presença da casa é algo que é manipulado no filme o tempo inteiro.

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A conversa das frestas não é uma conversa ENTRE, e sim DAS, isto é, a lacuna é parte constitutiva dessa confabulação, pois, sem ela, nada acontece. E a experiência de ser negro é justamente habitar essas frestas, estar em contato com a falta, e é uma falta que não fomos nós que produzimos; produziram para a gente e jogaram na caixa dos nossos peitos a responsabilidade de habitá-la. Então, quando Grace inteligentemente coloca a conversa entre as frestas e questiona sobre o vazamento, ela está nos questionando: “Quem é a nossa Pretinha?”.

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Por fim, Nosso Segredo, assim como Mambembe, foi um dos melhores filmes que assisti este ano (obrigado, João e Katarine, pelo convite). O que me encanta na arte é a manipulação da leveza, e isso Grace sabe fazer com muita maestria.

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