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Danilo Lima entrevista Amanda Cunha
#1 Sociedade da Combustão
Julho. 2025
“O recurso da cultura promove cidadania cultural. E as políticas afirmativas na cultura, são esses mecanismos que iremos avançar cada vez mais”.
DL: Quem é Amanda Cunha? Em que território você construiu a sua identidade?
AC: Eu sou gestora pública, tenho especialização em gestão estratégica de políticas públicas. Inicio minha experiência na gestão, através da saúde. Fui estudante de farmácia da UFBA e comecei a abrir outros horizontes dentro da Universidade, que inclusive pela militância do SUS, me ajudou muito a compreender que essa concepção de que saúde é só um corpo com a ausência ou não de doença, estava restrita, mas que a saúde é a complexidade do território com suas questões sociais e culturais, e como estes aspectos confluem com seus habitantes.
E a arte e a cultura, neste momento de militância, aparece já como um fator decisivo e fundamental nos indicadores de saúde, da qual eu pesquisava. Então eu acredito que foi a minha primeira conexão com a gestão cultural.
Em relação a minha identidade cultural, ela foi construída em Feira de Santana (BA) desde a minha infância. Minha família toda é de Feira de Santana, eu somente nasci em Salvador.
Minha mãe foi coordenadora do Centro de Cultura Amélia Amorim. E hoje, coisa interessante, ele está vinculado à Superintendência de Desenvolvimento Territorial da Cultura que eu ocupo e foi na Amélia Amorim que eu fiz o meu primeiro curso de ballet, de canto, de piano e depois retornamos para Salvador. Nesta cidade, eu fui fazer teatro no Espaço Xisto, com 15 anos de idade.
O meu ingresso na SECULT foi pela coordenação de dinamização dos espaços culturais, da Diretoria de Espaços Culturais da Superintendência. E ter sido coordenadora de dinamização foi um reencontro para mim. Com esses espaços culturais que me formaram, inclusive a arte acaba formando a gente de muitas formas.
Ela nos ajuda a compor a nossa identidade de muitos jeitos. E estar em Salvador, em Feira de Santana, chegar em Alagoinhas, reencontrar com meu avô que era professor de teatro e ator em Alagoinhas, sinto que foi um reencontro com a minha ancestralidade.
Que a cultura me proporcionou. Então a minha identidade é nesse território do Sertão da Bahia, porque vivi em Feira de Santana, no portal do Sertão. É lá, foi ter muito mais vínculo com o sertão do que com o litoral. Minha formação é para essa relação com a arte e com a cultura.
DL: Qual a identidade que você percebe possuir na gestão pública de cultura atualmente?
AC: A gestão cultural, ela é um espaço da criatividade. Sendo assim, é um espaço de criação. O mundo apresenta uma diversidade de questões e de formas de viver, que o Estado precisa olhar, se relacionar, compreender e propor. E por termos uma gestão da cultura ainda um tanto fragilizada por conta da recentemente criação do Sistema Nacional de Cultura, precisamos cada vez mais aprofundar as formações nessa área, principalmente na gestão municipal de cultura.
A criação da própria Secretaria de Cultura, se a gente for pensar do ponto de vista do tempo das instituições no Brasil, na Bahia, a SECULT, ela é a filha mais nova desse governo. A SECULT é muito jovem.
Possuímos uma ausência de definição de fluxo de ferramentas e de instrumentos administrativos muito grande.
Outra questão são as políticas públicas, com continuidade no Brasil, estão em constante criação. Desse modo, eu acredito que a gestão cultural é a impressão daquilo que as pessoas produzem em determinado tempo. Nem sempre, por exemplo, uma gestão conserva o que a outra realizou. E você tem uma mudança muito radical dos rumos.
Eu acho que isso se deve muito a isso que você traz, Danilo, sobre o que é a nossa identidade? O que as pessoas trazem, de onde elas vêm, o que as formou, né? Acaba sendo expresso na política cultural. Então, se você olha a gestão da cultura e o que foi produzido nos últimos anos na Bahia, dá para você perceber, por exemplo, as marcas muito fortes das gestões do Márcio Meirelles, do Albino Rubim. Assim como da Arany Santana, e o de Jorge Portugal, e de quem é agora o secretário Bruno Monteiro. E cada gestão ela vai tendo uma característica diferente daquele momento, daquela conjuntura, mas também daqueles sujeitos.
Hoje, por exemplo, na minha perspectiva e a perspectiva aqui dessa gestão de governo, e de toda a equipe da Superintendência, possuímos um olhar para os povos originários. Na participação e protagonismo dos povos indígenas, quilombolas e ciganos, assim com as de fundo e fechos de pasto.
É nas políticas culturais, de forma que isso representa também a defesa dos territórios e a política de territorialização. Até porque não tem como. A gente tá falando hoje de crise climática, novas formas de energia, como o impacto de eólicas e da mineração e o êxodo das pessoas. Assim como a violência no nosso estado, a violência no campo, a violência nas aldeias.
E você não pensar que a cultura não precisa ter uma pactuação de responsabilidade com isso, né? Então eu acho que tem uma questão que eu, por ser militante desde muito cedo na política, advinda do movimento secundarista, do movimento estudantil e universitário, preciso imprimir essas urgências na gestão.
Como recentemente, fomos questionados por ter um edital da política cultura viva somente para ponto de cultura indígenas. E para mim, acredito que a defesa política em determinado momento é você ter o espaço de criação. Acho que esse é um casamento muito bom. Acredito que para qualquer pessoa isso é muito revigorante assim, né? Você está no espaço onde possa criar uma série de políticas culturais.
DL: O nosso editorial deste ano, que tem a ver com sociedade da combustão, é uma pesquisa que Padmateo já realiza. E vai intercalando com teóricos, como Paul Preciado. Nos provoca sobre a imagem da combustão. E a partir desse editorial, refletimos sobre como o fogo na cultura pode destruir, como recriar outras possibilidades e deixar de existir algumas outras culturas. Compreendemos que a palavra cultura, ela é muito ampla. Mas nos interessa as que criticam a cultura da violência, assim como desejamos confabular a cultura do bem viver. Desejamos ter perguntar, sobre qual a cultura você acredita e que pode reconstruir e refundar. Que cultura é essa que você acredita que pode refundar os territórios de identidade?
AC: Estamos vivendo atualmente uma combustão climática mundial. E gostaria de compartilhar que, porque me parece, às vezes, que o teatro, a dança, as artes em geral se anulam na responsabilidade de pensar um fazer também sustentável. Onde a sustentabilidade e a ecologia, permeando em só um campo.
É uma responsabilidade da cultura, e deve se tornar cultural.
Eu sempre penso que esse conceito de nação e povo é muito abstrato. O que você tem, são os territórios e que, por convenção, são territórios que formam ali uma Unidade Federativa. Mas dentro dos territórios você tem um mundo, né? Cada território é um universo. Quando você vai para uma uma comunidade de uma Vila, ali você já tem territórios dentro daquele lugar.
Compreendo que o nosso território Brasil, é marcado pela cultura da violência por conta da colonização. E que se criou uma identidade de que ao mesmo tempo é um ponto positivo, mas eu acho que também um ponto terrível. O de viver em resistência. Estarmos o tempo todo resistindo, é uma marca exaustiva. Ninguém aguenta viver só resistindo e tomando porrada, e acabamos exaltando esse lugar da resistência.
Estamos o tempo inteiro reinventando os territórios, porque a gente precisa reinventar o tempo inteiro a forma de sobreviver.
E isso, reitero, é terrível. Mas, por outro lado, as pessoas falam: “Ah! O povo brasileiro é muito criativo!”. Eu acho que nossa criatividade, ela está sempre ligada ao lugar da violência e da dor. Desse lugar criativo, da resistência. Quando você retira um povo de um território, você tira as condições de vida, por exemplo, como a água, a terra. E essas pessoas, elas tornam-se trabalhadoras e agora as trabalhadoras de outrem, né? Porque antes do trabalho era o trabalho da vida. Em si mesmo.
E isso faz com que as pessoas sejam expulsas de seus territórios de origem e elas refundem outros territórios. E a gente tem exemplos disso no Brasil o tempo inteiro. As favelas são exemplos disso. Ali é uma criação de um território que não existia, não existia favela. E, é uma criação e é uma criação conceitual, empírica, material.
Advém também de uma insurgência nossa de dizer, nós não vamos morrer, iremos seguir vivo, a gente vai fazer uma forma de viver que vai ser possível. Você vai ver e a gente vai e faz.
Se você olhar a região metropolitana, por exemplo, de Salvador, que é Simões Filho, é um grande Quilombo, mas aí ela se torna a área industrial. Para onde foram essas pessoas?
A combustão é cotidiana, inclusive porque você precisa sobreviver com a polícia entregando um corpo de um adolescente na sua porta. Se você não tiver uma combustão cotidiana, aquela comunidade cai.
A violência do racismo principalmente. Que é a base da necropolítica mesmo, da morte. Ela faz com que a gente precise recriar e estar em combustão cotidianamente.
As comunidades estão deprimidas, estão adoecidas mentalmente. Então, se não se recriam formas de sobreviver a isso todos os dias, para que um indivíduo, apenas acordar de manhã e ir trabalhar, sem almejar a condição de sobrevivência digna, e a comunidade toda não ter essa condição, aquela comunidade inteira cai. E nesse momento que eu acredito sobre o papel da arte e da cultura, precisa ser uma potência. Mas não só de que as pessoas sempre pensam assim: “Ah! Quando tem um show, um curso de dança, uma peça de teatro, um curso de teatro.”
Porque isso é comum na sociedade capitalista. Se torna um lugar de ocupação, onde as pessoas precisam estar fazendo… fazendo alguma coisa. A cultura precisa ser uma potência de existência.
Existência a partir de experiências.
E os adolescentes e a juventude, que precisam se aproximar dessas experiências, pois, serão essas pessoas que vão estar legislando sobre, por exemplo, quanto eu vou receber de aposentadoria. Porque são elas, as futuras gestoras da minha vida.
A arte, nesse lugar que eu vejo, é a de pensar territórios e refundá-lo. Esse é o lugar que conecta, conecta a comunidade, que faz a gente se ver um no outro.
A arte precisa se responsabilizar também. E eu respeito muito esse lugar da arte, descomprometida e tudo, porque eu concordo com aquela frase, arte não precisa ser nada, arte precisa ser livre, porque a liberdade vem disso também. Mas no momento do mundo atual, o compromisso precisa ser coletivo.
DL: Uma matéria realizada pelo site Correio da Bahia, com o título “Saiu o resultado estadual da Aldir Blanc e tá parecendo Bolsa Família”. Você, como gestora pública de cultura, que se relaciona diretamente em construir políticas culturais para descentralizar recursos. Como é que isso chega pra você?
AC: Na época, eu até brinquei assim: “Olha, a gente antes era o CRAS, era só o serviço. Agora a gente é a política pública, a gente agora é o bolsa família, a gente avançou”.
Eu gosto quando essas essas coisas são feitas assim, porque a gente sabe o que as pessoas estão pensando. As pessoas precisam dizer o que elas estão pensando, né?
E as pessoas também têm o direito de fazer esse debate público.
A arte profissional precisa ser um lugar olhado do ponto de vista do trabalho, mas há também um lugar fundamental que é esse lugar do compromisso que é de fazer o recurso chegar onde não chegava e da salvaguarda das tradições e do nosso povo.
Isso não pode virar um problema. Quando eu li aquilo, eu falei, olha, gente, eu gosto muito de dar nome aos bois, e pra mim isso é racismo, ponto, vamos resumir essa matéria.
Quando esse recurso começa a chegar em territórios onde nunca tinha chegado. E quando as pessoas falam assim, eu posso, esse recurso também é meu. Sai daquele lugar de olha, isso não é pra mim, pra esse daqui é meu. A gente começa também a criar novos centros da arte.
Isso também causa muito incômodo, né? E eu sou muito defensora do bolsa família, sou muito defensora da distribuição direta de renda. E quando compara a gente com o bolsa família, tenho um orgulho enorme, porque eu acho que esse é o maior programa de decência do estado brasileiro das últimas décadas, né? Mas eu vejo, eu acho, uma fala extremamente racista.
Esses povos precisam existir em condições de dignidade. É um compromisso sobre a vida.
E quem tá achando ruim. Eu lamento muito, mas vai piorar pra quem tá achando ruim e talvez melhore pra maior parte das pessoas que isso seja importante.
DL: O que inspira Amanda Cunha?
AC: Eu gosto muito de ser provocada. E me sinto muito provocada pelo desejo da transformação mesmo do mundo, da sociedade, da forma de fazer. E a política territorial, para mim ela é uma inspiração. Porque dentro dessa Bahia profunda, existem muitas outras formas de de viver, de cultura, que a capital precisa ter como referencial.
Quando a gente bota as nossas angústias na mesa e juntos e juntas a gente acaba criando mais, né? Então isso me inspira muito.
DL: Nós Da Hiato, Litígio, agradecemos a por compartilhar suas reflexões e se sentir afetada por nosso editorial.
AC: Agradeço também pelo convite, desejo uma ótima leitura aos/às leitoras, e que projetos assim, nos ajudem nessa nessa batalha da comunicação, colocando a arte e cultura nesse lugar, da reflexão da sociedade, trazendo mais gente pra gente conversar, porque os tempos sempre foram difíceis, e atualmente possuímos diversas fontes não confiáveis de comunicação, e ter uma revista de crítica de artes, que se propõe ser contemporânea, tem muito o que contribuir com os debates sociais, por meio da arte.