

ADOREI AS ALMAS, AS ALMAS ADOREI!
Por Douglas Sacramento
Maio. 2026
I
Começo esta crítica no dia 13 de maio. Faz dois meses que defendi minha tese de doutorado e menos de 24 horas que li o livro de poemas de Cassiano Figueiredo, Escravidão do silêncio (Urutau, 2026). Data emblemática para a comunidade negra, a falsa abolição da escravatura foi assinada neste mesmo dia, e as consequência da falta de assistência da pátria para com o nosso povo são sentidas na pele até hoje.
Antes de adentrar o livro, é interessante perceber como a ancestralidade se movimenta. Hoje, em muitas casas de religião de matriz africana, estão arriando e festejando os Pretos Velhos – na minha casa, essas divindades recebem a alcunha carinhosa de Vovô e Vovó. Num dia como este, tão propício, e pedindo licença a essas entidades, discorro sobre um livro que aborda os nossos ancestrais e, consequentemente, Pretos e Pretas Velhas.
II
Cassiano Figueiredo é carioca e de Orixá. Professor de língua inglesa, escreve para a Revista Ruído Manifesto, na qual atua como colunista, e publicou seu primeiro livro, Versos tecidos com fio d’água, em 2024.
Escravidão do silêncio é seu segundo livro de poesia, composto por 17 poemas, alguns deles divididos em partes. Os textos aqui presentes dialogam com um dos períodos mais nefastos da história do Brasil, submetido com frequência ao apagamento e à minimização de seus efeitos na historiografia nacional: a escravidão.
Figueiredo realiza, portanto, um movimento interessante: invoca esses ancestrais e reconta o período do cativeiro no Brasil, a abolição e o pós-abolição. Para isso, o autor faz uso de uma voz poética ancestral, como se estivéssemos diante de Pretos e Pretas Velhas contando e cantando suas narrativas de outrora.
III
A ancestralidade é um dos pilares que movimentam as vozes poéticas invocadas nos poemas e a linguagem que percorre os versos de Cassiano Figueiredo. Como pontua Jurema Oliveira em A ancestralidade e as narratologias (Appris Editora, 2022), ao mapear a figura dos ancestrais nas literaturas do Brasil e do continente africano, o escritor que elabora um texto alinhavado por questões ancestrais faz uso da oralidade, da qual se retira o insumo para compreender as fronteiras borradas entre vida e morte. Além disso, a oralidade demarca de qual lugar veio esse conhecimento, isto é, das comunidades de terreiro das religiões de matriz africana e/ou da transmissão em sua própria família de sangue.
Então, ao abrir o livro de Figueiredo, já nos deparamos com epígrafes compostas por pontos de Preto Velho da Umbanda:
pai joaquim,
cadê pai tomé?
tá na mata plantando café” (p. 26).
Tomando como base aqueles que vieram antes, o livro percorre, por meio dos poemas, a figura desses sujeitos negros que foram sequestrados de sua terra e submetidos a dificuldades, violências e mortes físicas e simbólicas, uma vez que não estavam incluídos no discurso moderno de humanidade.
A abolição não instaura uma liberdade assistida, ao contrário, cria novas ramificações para que o racismo adentre o cotidiano desses sujeitos:
desde mil e oitocentos
e oitenta e oito
a ausência das chibatadas
e outras atrocidades
encontraram outros meios
na calada
nos olhares
e gestos (p. 15)
Para além do ancestral e da historiografia narrada de dentro – com esses sujeitos trazendo suas especificidades e ponto de vista, colocados às margens pela história oficial – , elementos desse período são rememorados e atualizados. A casa-grande de outrora reaparece na casa da patroa. A fome e o pós-abolição aparecem constantemente na voz poética presente no livro.
Se antes do dia 13 de maio a violência já existia, imagine o dia 14 em diante. Nada foi tranquilo. Não existiu auxílio, suporte ou amparo do Estado. Isso marcou gerações inteiras e suas proles com a miséria e o trabalho de ganho mal remunerado.
questionar
se deve ou não criar e amamentar os seus filhos
aceitar as suas sobras
tolerar a fome
engolir as palavras secas (p. 30)
Por isso, Figueiredo passeia o tempo todo pelos tempos, nada é linear. A avó retorna, a mãe também, e tudo isso ecoa nos olhares do contemporâneo e nas violências subjetivas do racismo nos dias de hoje. Essa é uma forma de marcar a violência racial que está no subentendido e nas entrelinhas: “grito é fome” (p. 34).
A espiralidade do tempo – trazendo Leda Maria Martins para roda com o livro Performances do tempo espiralar, poéticas do corpo-tela (Cobogó, 2021) – serve ao leitor contemporâneo como ensinamento. Precisamos parar para ouvir os mais velhos e nossos ancestrais: senhoridade é posto.
O café, também, surge como ícone de memória e é reformulado nos versos, perpassando a plantação que abrigou e foi placo de muitas violências, por meio dos chicotes e chibatadas direcionados aos negros escravizados que trabalhavam na terra. Posteriormente, transformasse em bebida ancestral, símbolo dos negros que se encantaram e retornam nas casas de axé.
Esses encantados ocasionam cura e bonança aos corpos dos sujeitos que ali buscam melhora. A voz poética se insere nessa coletividade das comunidades de terreiro, nas quais o culto proveniente da transmissão oral produz um entendimento sobre si e sobre os seus no presente, passado e futuro. Processo de cura.
escrever
com borra de café
um manual de sobrevivência (p. 25)
Dessa escrita que mescla vivências e ancestralidades, o axé circula e impregna as palavras, versos e estrofes da poética de Cassiano Figueiredo.
IV
Faço um adendo para finalizar esta crítica trazendo uma narrativa pessoal que reverberou após a leitura do livro. Lembro de uma vez em que passava por uma questão espiritual muito específica – inclusive, foi esse o motivo de eu ter me aproximado do candomblé –. Estava no terreiro quando descobri e encaixei – rememorando um jogo que minha mãe abrira um ano antes – as peças que faltavam para entender o que estava acontecendo comigo. Minha mãe me levou ao quarto de Vovô e Vovó e disse pra eu pedir com fé - “são entidades que trazem a libertação do cativeiro espiritual”. Acendi duas velas. Pensei em mim, nos meus e nos versos que me afetaram quando terminei de ler o livro de Cassiano Figueiredo, pois é esse o caminho que o autor constrói, de forma pungente e esquemática. Em Escravidão do Silêncio, o leitor acompanha as violências e os silenciamentos infringidos aos negros e negras no período da escravização, na casa-grande, na pobreza do pós-13 de maio de 1888, nas plantações, na rua e na casa da patroa, até a compreensão de que o ancestral só quer o melhor para nós, oferecendo saúde, cura e libertação das nossas vozes. Portanto, prestem atenção e adorem as almas. Ou melhor: leiam com atenção Cassiano Figueiredo e adorem as almas.
Imagem em diálogo: Ibá Olokun - Luiz Pedra - 2025