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Imagem: Letras UFMG


A 7 PALMOS, O CAIXÃO DO PAI 

Por Douglas Sacramento  

Janeiro. 2026 

UM PALMO DE TERRA

Existe uma previsão futurística e agourenta sobre mim e minha relação com meu pai que surge como um refrão em várias conversas cotidianas dentro de minha casa: um dia, meu pai vai ficar muito doente e, dos quatro rebentos que teve, eu seria aquele que esqueceria todo um passado complicado e marcado por violências simbólicas vividas na infância e na adolescência “para ser um homem”, para cuidar do corpo moribundo que ele virá a ser no futuro. Esse ato, seguido de uma suposta redenção da figura paterna diante da morte, culminaria no reconhecimento de mim como filho – justamente aquele que ele marcou por meio de inúmeras situações constrangedoras –, em um pedido de desculpas e, por fim, em uma boa passagem.

Ao ouvir essa narrativa em looping, nos mais variados contextos, sempre ecoam duas perguntas na minha cabeça e, ao ler o livro aqui resenhado, reverberaram mais uma vez: A morte, ou a iminência dela, tem a obrigação de mudar o sujeito? Por que incutir nessa figura uma carga tão intensa de reparação e de mudança ontológica?

Essas perguntas são, para mim, o ponto de partida da leitura de Santo de casa, de Stefano Volp (Record, 2025). No romance, vejo cenas muito próximas do que vivi, enquanto sujeito negro, gay e oriundo da periferia de Salvador. Mas, é preciso ir além; é necessário descer mais fundo, até encontrar o caixão e exumar a figura paterna que se configura como o mote da narrativa.

                   TRÊS PALMOS DE TERRA

Stefano Volp é um escritor, jornalista e roteirista negro brasileiro. Dentre suas obras, destacam-se Homens pretos (não) choram (HarperCollins, 2022), O beijo no rio (HarperCollins, 2022), Nunca vi a chuva (Galera, 2023) e O Segredo das Larvas (Galera, 2024). Santo de casa (2024) é sua primeira ficção adulta. 

O romance aqui abordado acompanha a família de Zé Maria e Rute, casal que vive numa cidade pequena e cuja relação é marcada por episódios constantes de violência física, a ponto da mulher, em um ato exausto,  tentar matar o marido por envenenamento – tentativa que não dá certo.

Concomitantemente, o casal tem três descendentes: Alex, o mais velho, que vive fora do país e se relaciona com uma francesa chamada Emma; Betina, mulher trans que retorna à cidade para enterrar o pai e que, às vésperas da cirurgia de redesignação sexual, é confrontada com o próprio passado – a relação com a ex-companheira e a perda de um filho do casal; e Alan, o caçula, que deveria estar cursando medicina na capital, não fosse as mentiras  para os pais sobre sua trajetória acadêmica. Tendo feito uma promessa ao pai que se tornaria médico, Alan, na verdade, cursa Letras e quer ser escritor, sendo ele, também, o narrador da história a partir de seus múltiplos pontos de vista.

Os três irmãos retornam à casa dos pais para enterrar Zé Maria, morto após o ataque de uma onça. A partir disso, o leitor embarca nas nuances e nos conflitos das personagens diante desse homem de vida dupla: “pois eu quero que ele seja lembrado por aquilo que era, na rua um santo, em casa o diabo” (p. 187). A chegada dos filhos para dar entrada na documentação de liberação do corpo, o velório, o cortejo fúnebre e o período após o enterro fazem parte de um percurso marcado por descobertas, pelos lutos de cada um e pela dessacralização da imagem de Zé Maria, visto como santo pela comunidade em que é inserida a história.

                                                                                                                                                                  CINCO PALMOS DE TERRA

O leitor está diante do processo de exumação do corpo paterno e percebe que ele está longe de ser incorrupto. Muito pelo contrário, foi a própria sociedade que o colocou nesse lugar de sacralidade, enquanto, dentro de casa, a relação familiar era marcada pela perpetuação de um poder patriarcal e por cenas de violência direcionadas a todos os membros da família. Sendo assim, trata-se de um corpo que já sofria em vida, vazando sangue, sentindo dores e sendo evocado, pela memória dos filhos, por imagens que remetem à putrefação e à decomposição.

Nesse cenário, destaco a relação entre o patriarca e o narrador do romance, personagem gay que, na adolescência, descobriu que o pai tinha uma coleção de revistas pornográficas masculinas, as quais pegava escondido para se masturbar. Revistas que Rute sabia da existência, mas, silenciada por essa autoridade masculina do marido, não tinha direito à fala e era constantemente agredida. Zé Maria agia como uma figura de Deus justiceiro do Velho Testamento, exercendo um poder punitivo e violento.

[...] medo da morte não ser o suficiente para retirar a presença de alguém. [...] mas a presença continua te oprimindo o tempo inteiro igualzinho o olho de deus. Meu pai dizia que deus vê tudo, no mais profundo dos mares, no mais alto céu, não há como se esconder de deus, um olho frio e julgador te acompanhando enquanto você tranca a porta do banheiro e tanta tocar a língua no seu próprio pau, um olho que penetra até mesmo os seus pensamentos e pesa os desejos um a um. (p. 56)

Esse retorno aos atos do pai, rememorados pelas personagens, coloca em questão quem é, afinal, essa figura que conseguiu performar para a sociedade uma persona distinta daquela vivida no núcleo familiar. A vivência de aparências, cujo confronto interno, em casa quebra o teto de vidro de um sujeito representado como a lei do lar, evoca ecos psicanalíticos em que a figura paterna instaura interditos e tabus.

Se por um lado o  Alan viveu por anos escondendo sua sexualidade e só conseguiu um pouco de paz ao sair de casa para estudar na capital, por outro, ele ainda sente a perda. O pai morto está no limiar entre ser perdoado e ser penalizado. Alex, por sua vez, é o espelho dessa figura paterna: bate na mulher e faz tudo por dinheiro, sustentado pela perpetuação de um discurso evangélico, segundo o qual, na juventude, teria recebido a revelação de que seria rico e viajaria pelo mundo. Assim, ele é um filho indignado pela morte do pai e pelo modo como morreu.

zé maria não parecia o homem forte de antes, a cabeça diminuta a pele sebosa centenas de milhares de vermes o comeriam em poucas horas até que em alguns meses não sobrasse nada, uma tremenda falta de respeito. se pudesse, você embalaria o corpo a vácuo para preservá-lo um pouco mais. se pudesse, nunca teria brincado de tiroteio na infância, nunca teria sido atingido por balas de mentirinha e jamais teria caído no chão grugulejando sangue imaginário e sacudindo o corpo, tudo agora parecia uma afronta, uma depreciação daquilo se que tornava para você mais sagrado do que qualquer outra coisa: a morte, a morte devia ser respeitada. (p. 90) 

Então, o leitor percebe que a representação da figura paterna está ancorada em valores propagados pelo patriarcado. O pai é rememorado pelo narrador por meio da imagem do pênis grande, frequentemente associada à virilidade. No entanto, no final da vida, essa construção é descortinada pela mãe, ao revelar que Zé Maria estava sofrendo de um câncer de próstata e que deixou a doença piorar para não ter que fazer o exame de toque retal.

O pênis funciona como marcador do poderio masculino de Zé Maria, e, consequentemente, a “dedada” – um gesto médico, mas também simbólico – poderia ameaçar destruir este castelo construído sobre o símbolo fálico. O que se revela, portanto, é a fragilidade de uma masculinidade.

[...] lembro das vezes em que tomávamos banho juntos sem roupa e eu espiava aquilo, ele não queria disfarce, mostrava a cabeça e me ensinava como se lavava. se não arregaçar não cresce, garoto, tem que lavar esse sebo. acontece que a cabeça do meu era do tamanho de uma bolinha de gude e a dele quase que uma de tênis, e eu me perguntava se algum dia também teria uma bengala debaixo das pernas, se aquilo não incomodava e se todos os homens adultos ficavam daquele jeito. (p. 47)

Por último, Betina é a personagem que recalcou a relação dela com Zé Maria. Não existe, em sua memória, a mesma quantidade de rememorações nem o mesmo sentimento de saudade que os outros filhos. A presença de Betina desestrutura a casa e a cidade, pois carrega consigo uma história marcada pela relação com sua ex-mulher, um filho perdido e a fuga necessária para poder ser quem é fora daquele lugar tão violento e apequenado. As resoluções referentes ao corpo do morto, ao velório e ao luto são conduzidas pela racionalidade própria de quem retirou a figura paterna do lugar de poder. O pai era um sujeito imperfeito, que batia na mãe dela, e, portanto, deveria ser reconhecido por esses atos, como afirma a personagem: “chega de abusadores, você estancaria aquele mal da família a qualquer custo. Alex seria o último homem a tocar em uma mulher” (p. 159). Nesse sentido, Betina se iguala à mãe. Para Rute, a morte do marido é sinônimo de libertação. Ela cozinha suas melhores comidas durante o período do enterro e do pós-enterro, e não comparece ao sepultamento. 

Retomo aqui as perguntas do início desse texto, uma vez que a morte do pai, no romance, é ambígua. Para os filhos homens, existe um tom de redenção e de deslocamento afetivo: o pai é, em alguma medida, perdoado e amado, ainda que com críticas e ressalvas. Para as figuras femininas, entretanto, a doença, o sofrimento e a morte violenta – causada por uma onça – foram mais que merecidas.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      SETE PALMOS DE TERRA

O historiador Philippe Ariès, no livro História da morte no ocidente, aponta que o nosso imaginário da morte como redenção do sujeito tem origem no medievo. Nesse período, o julgamento final ocorria no leito do moribundo, e as figuras de Deus e do Diabo apareciam para deliberar qual caminho aquela alma deveria seguir no pós-morte. Forma-se, assim, um imaginário relativo ao caráter da redenção diante dela, como uma última lição de vida para aquele que morre e para as pessoas à sua volta, uma vez que o luto também tem um caráter pedagógico.

Logo, pensar a morte como agente de modificação do sujeito está na zona de disputas que o romance de Volp alinhava. A narrativa se ergue a partir do morto e de seu passado sendo descortinado pelos diferentes pontos de vista familiares, o que apresenta ao leitor representações diversas de Zé Maria e afetações inconstantes em relação ao pai. Se o contato tão próximo com a morte, decorrente de uma doença em estágio avançado, foi capaz ou não de modificar esse personagem, cabe ao leitor mergulhar nesses relatos narrados em primeira e terceira pessoa. Eis o nó górdio da obra: o leitor está imerso nesse conflito, recebendo versões divergentes sobre a figura paterna.

Volp aponta caminhos para entender a decomposição do corpo de um pai, permitindo que o leitor presencie a exumação desse corpo que é realizada pelos próprios parentes. O santo que não é santo – demônio para uns e quase divino para outros – revela as tensões das relações paternas dentro do seio familiar, colocando o holofote sobre dinâmicas de sexualidade e gênero que ecoam em todo o território nacional. Santo de casa é um romance que, ao retratar as nuances múltiplas do luto, lida com memórias recalcadas que ultrapassam o âmbito individual e se mostram como experiências coletivas da comunidade negra e LGBT+.

Douglas Sacramento é doutorando em Estudos Étnicos e Africanos (Pós-Afro/UFBA). Bolsista CAPES. Mestre em Literatura e Cultura (PPGLitCult/UFBA). Desenvolve pesquisas sobre a morte e suas representações na literatura negra e não-negra, abordando temas como pós-morte, luto e perda, corporeidade ausente e presente, erotismo e morte, ritos fúnebres e as relações entre morte e religiosidades de matriz africana.

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