

Imagem: Bexiga, Henrique Reis, 2025. (serigrafia sobre viscose, edição de 5 cópias)
REBUCETEIOS DE PORTAS ABERTAS
Por Douglas Sacramento
Março. 2026
Existe uma dinâmica na comunidade gay, da qual faço parte, que consiste em perceber que, dentro de um determinado grupo de pessoas que se conhecem entre si, várias já se envolveram afetivamente. “Rebuceteio” é o nome dado a esse fenômeno. Recentemente, fui ao aniversário de um querido amigo, num rodízio de pizza e lá, no decorrer da festa, percebi que o aniversariante só havia convidado ex-ficantes – e esses já tinham se envolvido entre si ou conversado em aplicativos de relacionamento e pegação. Todos ali estavam escondendo esse fato ou fingindo que não se conheciam, como se houvesse alguma culpa por terem se relacionado uns com os outros.
Essas dinâmicas contemporâneas, que destoam do discurso hegemônico – reiterado pelas artes e pelas mídias – do relacionamento monogâmico, romântico e fechado, estão fadadas a problematizações. A literatura brasileira contemporânea, ao acompanhar esses cenários e nuances dos tempos atuais, incorpora ao tecido literário esses novos modos de vivenciar as experiências afetivas e sexuais.
Tobias Carvalho, escritor do Rio Grande do Sul, começou sua carreira literária ao vencer o Prêmio Sesc de Literatura, em 2018, na categoria Contos, com o livro As coisas (Record, 2018). Em 2021, publicou Visão Noturna (Todavia, 2021), também de contos, obra que lhe rendeu o Prêmio Açorianos de Literatura, em 2023, nas categorias Conto e Livro do Ano.
Para além da produção de contos, Tobias Carvalho lançou seu primeiro romance, Quarto Aberto (Companhia das Letras, 2023). O livro está centrado na figura de Artur, drag queen que trabalha no café de uma livraria. Sem a sua mãe e os seus avós, mora com o namorado, Caíque, um homem negro. Eles mantêm um relacionamento aberto e ambos se relacionam, também, com outras pessoas, embora nunca tenham discutido claramente os acordos dessa “abertura”.
A narrativa se passa em Porto Alegre e começa com o retorno de um homem com quem Artur se relacionava de forma fixa aos fins de semana, durante a faculdade, até receber um ghosting – foi bloqueado nas redes sociais e nos aplicativos. Eric, médico e futuro dermatologista, depois de algum tempo, manda mensagem para Artur e, após desbloqueios, combinam um encontro. Transam no carro, em uma cena com gosto de nostalgia, acompanhada de justificativas para o sumiço. A conversa continua ao longo do dia por celular, mas tudo muda quando Antônio, namorado de Eric, descobre o envolvimento e não é comunicado, quebrando um dos acordos estabelecidos na abertura da relação. Antônio é um homem rico e padrão, cuja decisão de abrir o relacionamento ocorreu, sobretudo, para agradar o parceiro.
Rebuceteio. Assim, Antônio entra em contato com Artur e, dessa conversa, surge uma investida do casal para uma possível relação tripla com o protagonista. Ao contar a situação para Caíque, há inicialmente uma reação sem choque ou surpresa, mas, no desenrolar da trama, quando Artur demonstra gostar de se relacionar sexualmente tanto com Eric, quanto com Antônio, o namorado reage com ciúmes.
Logo, Antônio tenta se aproximar de Caíque – por meio das idas aos shows de drag que Artur faz e de uma visita à sua casa de campo –, ocasionando o estreitamento das relações entre os dois casais e uma aproximação sexual entre Caíque e Eric. A partir daí, as relações afetivas ganham outras formas e recepções, pois aquilo que parecia coeso, passa a ser atravessado por questionamentos.
ESCREVER AS ABERTURAS, QUESTIONAR AS FECHADURAS
O romance de Tobias Carvalho aponta caminhos interessantes sobre a relação entre a literatura e os arranjos afetivos da contemporaneidade. O que está posto na narrativa é tratado com uma naturalidade que deveria estar posta quando falamos de não monogamia. O próprio título já aponta essas nuances: o quarto está aberto; nada está trancado. Porém, a abertura exige dos personagens certezas sobre o que estão vivendo, e a desestabilização do ideal de relacionamento e do amor romântico vem à tona.
Dentro da narrativa, existe uma discussão explícita entre monogamia e não monogamia. Geni Núñez, escritora, psicóloga e ativista indígena guarani brasileira, no livro Descolonizando Afetos (Planeta do Brasil, 2023), aponta que, ao abordar tais temas, não se pode reduzir o debate para a quantidade de parceiros(as), mas pensar nas decisões que os sujeitos tomam para se sentirem bem consigo mesmos – abrindo espaço para uma ruptura com a monogamia e com a heteronormatividade. Para a autora, sempre vai existir uma tensão nessa discussão, pois estamos falando de um discurso perpetuado desde a colonização, que associa a civilização ao controle dos arranjos afetivos – isto é, um relacionamento exclusivo e para a vida toda –, em oposição à ideia de “selvageria” atribuída às formas não monogâmicas.
As personagens do romance estão nesse local de questionamento e compreensão sobre a possibilidade de viver arranjos afetivos que diferem da norma, fazendo coro à Núñez ao promoverem “uma crítica ao modo como a normatividade monogâmica se organiza” (p. 61). Por isso, existe um morde e assopra, ora ensaiam um “exercício de descolonização” no campo dos afetos, ora reproduzem padrões normativos. Isso faz parte do processo, já que a abertura do quarto – e do relacionamento – é recente.
O confronto entre o casal protagonista evidencia esses caminhos da abertura – entre expectativa e realidade. Quando Caíque questiona Artur, o ciúme surge por causa da atenção exacerbada que o parceiro dedica ao outro casal. Tudo começa a ser borrado, afinal, o leitor pressupõe que a abertura da relação estivesse pautada no sexo casual, sem pretensão de envolvimentos afetivos mais profundos.
Por um tempo fiquei remoendo possibilidades. Por exemplo: se eu propusesse um relacionamento aberto. Não ia bater uma insegurança no Caíque quanto ao meu amor por ele? Será que ele falaria o que sentia de verdade ou toparia a proposta só para me agradar? E caso a gente abrisse o relacionamento, estaríamos liberados pra ficar com qualquer cara que desse na telha? A gente contaria um pro outro dos nossos casinhos? E se ele não quisesse ficar com outras pessoas? (p. 70)
Como a imagem do quarto aberto estrutura o romance, não existem portas nem trancas, mas essa abertura impõe desafios. A ida à casa de campo de Antônio, em que os quatro acabam se relacionando, tem como ápice a experimentação de cogumelos, momento em que o medo da perda aflora em Artur, reverberando a morte da mãe e a ausência da figura paterna – um dos poucos parentes vivos que ainda lhe restam.
Compreendemos, assim, que a relação de Artur com Caíque também funciona como tentativa de obliterar o luto. Qualquer situação que dê indícios de um rompimento resulta em brigas e desconfiança. A iminência de repetir uma perda gera mais desconforto do que a vivência afetiva com outros homens, pois esta não ocupa o lugar da culpa. Logo, quando Caíque passa a se relacionar com Eric, seja jogando futebol ou passando fins de semanas juntos, Artur sente a iminência da perda, desencadeando uma crise existencial.
Pensei: será que se o Caíque terminar comigo vai ser difícil achar outro namorado? Vou encontrar alguém logo ou vou ficar um tempo na fossa? Pensei: a gente vai continuar se amando em segredo depois do término? A gente vai voltar a namorar um dia? Alguma coisa vai nos punir pelo resto da vida? Pensei: será que a gente vai ser amigo? Será que a gente vai se encontrar, cada um com seu namorado novo, e fazer um churrasco civilizado – será que o meu namorado vai saber assar que nem o Caíque? (p. 155)
O romance ganha outros caminhos para além da relação não monogâmica dos protagonistas. O leitor acompanha, de forma muito sensível, como a morte da mãe afeta Artur, sua busca pelo pai e o encontro com essa figura. Ao resolver esse passado, Artur começa a abrir novos espaços dentro desse quarto; investe na carreira promissora de drag queen e consegue dizer a Antônio que já conhecia Eric, o que resulta no distanciamento do casal. Mais importante, porém, é que o medo do término – tão presente no imaginário monogâmico – cai por terra, pois os acordos passam a ser conversados e delimitados.
[...]
‘Ah, um monte de coisa. Onde que é pra eu começar? Antes da gente abrir o namoro? Naquela época tava tudo certinho.’
‘Pois é, eu escuto isso bastante. Parece até que eu fui o único que tomou essa decisão.’
Caíque sorriu com ironia.
‘Mais ou menos, né. Não, não foi. Eu também tomei. Mas é que no começo eu não entendi. Tu apareceu com aqueles dois playboy, um mais branquelo que o outro – e tu queria que eu me sentisse como, Artur? Porra, já não basta ter nascido numa cidade em que só tem alemão. Não basta Porto Alegre. [...] Porra. Que que era pra eu pensar? Eu achei que eu ia ser trocado.’
‘Eu não ia te trocar, gurizão.’ (p. 230-231)
O final em aberto sobre as relações dos casais é sintomático da proposta de Tobias Carvalho de escancarar as organizações afetivas na contemporaneidade. Não há ponto final nem rompimento definitivo, mas a afirmação do direito de se sentir bem e de exercer o próprio desejo, sem normas engessadas compondo as representações desses homens gays. É um convite ao leitor para pensar sobre normatividades afetivas e sobre a instituição monogâmica na sociedade.
Quarto Aberto mostra as aberturas e questiona a necessidade das fechaduras – as trancas e os motivos para mantê-las – ao pensar o sujeito gay contemporâneo e seus modos de se relacionar. Tobias Carvalho apresenta uma escrita arguta e certeira, sem muitas delongas, com diálogos ágeis que lembram a linguagem dos aplicativos de pegação. Nada parece solto ou à toa, cada elemento contribui para entendermos as nuances desses casais e seus acordos. Mais uma vez, o autor demonstra um olhar atento sobre as dinâmicas atuais.
Douglas Sacramento é doutorando em Estudos Étnicos e Africanos (Pós-Afro/UFBA). Bolsista CAPES. Mestre em Literatura e Cultura (PPGLitCult/UFBA). Desenvolve pesquisas sobre a morte e suas representações na literatura negra e não-negra, abordando temas como pós-morte, luto e perda, corporeidade ausente e presente, erotismo e morte, ritos fúnebres e as relações entre morte e religiosidades de matriz africana.