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MOVER O BICHO
Sobre o Bicho de Lygia Clark na exposição Uma História da Arte Brasileira
Por Padmateo
Abril. 2026
O bicho me olha. O que come? Como dorme?
Sob uma jaula de vidro, se ausenta ao toque de meu dedo e mantém-se intacto, pasmo. Um bicho preso.
O vidro sobre um pedestal azul. Diz: cuidado, não toque. Um bicho feroz!
Sob o pedestal o chão do MAM – Bahia. Atrás dele a escada-traquitana de Lina Bo Bardi, que imita o retorcido bicho parado. Um bicho moderno.
Vejo o reflexo do bicho na jaula de vidro.
Vejo o meu reflexo no alumínio polido do bicho.
O bicho me olha. Me olho bicho.
Um zoológico.
O bicho está morto ou dormente. O modernismo também.
Suas juntas não rangem e nem parangolizam o seu enunciado.
Um bicho empalhado.
Clark se retorce, como bicho.
Sempre me surpreendo ao ver a obra de Lygia paralisada numa redoma, como se visse pela primeira vez, e de novo. A mesma surpresa do Wagner Schwartz, ao tentar libertar o Bicho com seu próprio corpo desnudo, em La Bête, antes de tentarem prendê-lo. Com a vitrine, a obra que instituía a interatividade neoconcreta brasileira, contra a racionalidade visual e matemática do concretismo, transforma-se num adereço hypado, um pingente. As ideias terapêuticas da artista, a anti-passividade (a da obra e do público) e a própria imposição petrificada e arquivística dos museus e mercado da arte - refletida no simples gesto de mover o bicho-, são destituídas pelo aviso “não toque!”. Quando lá, pré-ditadura, a ideia se sobrepunha à matéria, e a transformação do humano e do bicho em movimento era a própria obra em si, parada, aqui, hoje, democraticamente mostra que não nos transformamos em nada. Possível, amanhã um artista se surpreenderá em ir ao museu e ver o Schwartz parado, numa redoma de vidro.
Me olho novamente no reflexo do bicho e as paredes do museu por um instante, também, me enclausuram. Sou ele. Devo quebrar a vitrine? Não é este o papel de uma crítica: quebrar vitrines? Deixar a obra tocar? Reflito o intrusivo. Lembro do Schwartz. Não é meu papel dobrar e desdobrar a obra? Lembro de Lygia. As paredes do museu me olham como bicho e estou apertada entre a ética e a crítica. Devo quebrar a vitrine? Miro os alarmes. Triangulo a obra quebrada. Lembro de Bardi. Olho o público que me encara como se em mim escancarasse: “cuidado, crítica!”. Meu pensamento se contorce como a escada-traquitana e meu corpo se estagna como o alumínio da obra. Vou quebrar a vitrine.
Clark!
Um tanto de lascas voam ,
alarmes disparam ,
o museu se move ,
a obra respira
e os cacos podem
finalmente virar bicho
Imagem em diálogo: Acervo online Lygia Clarck