top of page
capa_edited.jpg
brasil .png
Sem titulo (1).heic
Sem titulo (1).heic

SÍLABAS

Sobre a obra OSSALITRES, da Plataforma ÀRÀKÁ

Por Julio Angelo 

Abril. 2026 

O cair da noite propicia a queda em direção a uma boca prenhe.
Ao passo que engatinhamos na estrutura de palafitas em madeira, nossa ginge
inaugural sugere que somos corpos estranhos naquele mistério, suspensos por um estado de
invenção.
Alheia a uma realidade estanque, a língua, aos bocados, se manifesta.
Não é estrangeira, mas incógnita.
“De diferente para diferente.” [1]
Há prazer em conhecê-la...
Nas curvas do arquivo, e no erotismo da ficção, a instalação-performance
OSSALITRES é apresentada como o segundo gesto do atual projeto poético de Diego Araúja,
a crioullage, inspirado no pensamento arquipélago de Édouard Glissant, poeta da Relação e
outros.
Por meio de uma engenhosidade arquitetônica e cênica, a obra em questão procura
rasurar hierarquias totalitárias entre linguagens, mídias e suportes. Ambiciona-se a projeção
de um todo. Antes, essa pedra angular orientou a composição de QUASEILHAS (2018).
Complexo de corredores e dimensões bifurcadas, esquinas da memória familiar de
Araúja, origami de penumbras e sussurros. No agora-simultâneo, ainda nesse processo de
reenactment oriki, dobra-se a aposta no público como peça faltante desse mosaico
insinuantemente espetacularizado.
Cai o pano stricto sensu do teatro e restam cortinas vazadas, redes de aproximação.
Aquilo que falta resiste para não ser percebido como déficit proveniente dos traumas
coloniais, mas (in)definido pelo devir de sua incompletude. Um fruto, sumo e germe da
agência performática que o coletivo andarilho passa a articular por essas salinas, seja dentro e
fora de suas mediações, salpicadas por uma luminosidade vagalume.
Em um movimento relacional — um “obrar” — o público desloca-se
como transe-unte ao ter contato com as quimeras que povoam as periferias e os cruzos da
espacialidade. São mixes de imagens e sonoridades (imagens-sonoras/sonoras-imagens) de
arquivo e da ação intervencionista da fabulação, operações que provocam remixes
sincopados.

Desse modo, cose-se narrativas performativas não subordinadas umas às outras, mas
coexistentes e abertas a novas confluências.
Acúmulo de vozes transversais. Graves. Granular dos falares crioulos. Nuvens
amplificadas pacientemente pelo ar. Chuva de verão.
Documentos extraoficiais do Congresso do Sal e da arqueologia imagética da cidade
de Salvador, gradualmente corroída pelo neocoronelismo, arranha-céus e turismo predatório
em flecha;
Registros históricos do Movimento Negro Unificado, suas ativistas e intelectuais, o
aquilombamento dos Salitres e a representação em gaps de seus membros;
E mais...
Tais frames — pitadas de sal na escuridão — ululam jazzísticamente junto ao tremor
de uma úvula em comum: aranhinha em sua ilha de edição, escoamento das inúmeras
tubulações do barracão. Padê posto na arena.
Quantos olhos ela tem? Olheiras por conta da vigília.
Havia de ser uma figura monstruosa. Anatomia mais-que-humana. Gigoia.
Viúva negra. Caranguejeira, caçadora e armadeira.
A diferença entre o veneno e o remédio é a dose de cachaça.
Camaleônica, Laís Machado transiciona os papéis de uma historiografia jamais
contada. Risca a lâmina sobre o documento.
Arranhão na garganta. Cosquinhas na língua.
Polifônica, MC, voz on/off desejante, espiã, disc jockey, bruxa, movie-maker,
infiltrada, editora, slammer e traidora.
Portanto, capaz de traduzir, através de desvios, uma vocálica faminta em fases de
crescimento que extrapola as cartografias futuras e outroras. Arte negra contemporânea.
Downloads. Descarregos. Banho de sal grosso.
Vertiginosa, pimenta de cheiro. Seus rastros são caudalosos, como o próprio figurino
acentua. Palavras lhe caem bem.
Espinha dorsal do ala(r)gamento de significados e sentidos das redes que pescam
tilápias e as devolvem para a fruição e adaptabilidade das águas.
Areia fofa. Clama por uma eventual passividade do público que flerta com o
voyeurismo ao tentar retê-la no limiar fotográfico.
Borrões. Cinética. Como nos relembra Glissant, não há passividade na Relação.

“Você está me comendo tanto pelos olhos que eu já não tenho de onde tirar força pra
te alimentar.” [2]
Essa cama efêmera confessa-se armadilha, estratégia de ataque e defesa dos
aracnídeos.
Para quem a olha, possível sumidouro.
Para si mesma, corpos insistentes a buscar tangibilidade, presença e algo parecido.
Bugs em suas múltiplas telas. De que formas podemos espantar as moscas?
Sobra mais uma vez o hackeamento, a transpiração do arquivo e a orquestração da
encenação, à exemplo do esforço de Hamlet. Dessa vez, sem o interesse de revelar a verdade
dos fatos, mas jogar com as falhas e opacidades.
“Das acontecências do banzo
brotará em nós o abraço à vida
e seguiremos nossas rotas
de sal e mel
por entre Salmos, Axés e Aleluias.” [3]
Ser-sendo, enquanto também rememoramos a tragédia do bardo inglês.
Ato 1 / Cena 5
O príncipe interpela para onde o fantasma do monarca assassinado o está conduzindo.
E, completa que não dará mais um passo caso não seja respondido.
“O documento é mudo até que se faça uma pergunta.”
Das tábuas de um tablado e das palafitas, farpas hão de importunar.
O tônico das palavras.

[1] Citação a Vaga Carne (2018), de Grace Passô

[2] Trecho presente em um dos falatórios de Stella do Patrocínio.

[3] Enxerto do poema “Apesar das acontecências do banzo” (2017) de Conceição Evaristo

Imagem em diálogo: Sem título, 2021, por Pedro Neves

bottom of page