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A MERDA DA CRÍTICA 

Por Padmateo 

Maio. 2026 

Vez, eu disse em uma aula da pós-graduação sobre a fisiologia da crítica e fui rapidamente repreendida. Tentava ali cooptar a crítica ao grau de excremento corpóreo, inerente às funções vitais (o que a regala ao escatológico), numa sala de uma universidade de Belas Artes, espaço higiênico que a propunha, inicialmente, enquanto constituição profissional da mediação e legitimação no mundo da arte – a sacralidade.


Não recuso a descrição. Mas cada um não faz do seu excremento um adubo que lhe convém? Pensar a crítica pelo viés da sacralidade ou no purismo profissional não a torna menos excremental e, logo, menos democrática.


É preciso antes afirmar que o excremento é o carimbo de vitalidade e uma cartografia saudável do corpo , ou seja, fisiologia vital. A sociedade constituída na fobia da semântica de tudo que envolve a natureza – conforme Krenak - que por consequência surge de natura, “nascer” em latim, ao se apartar decreta-se morta. É, portanto, natimorta sociedade e vê na fisiologia do excremento um lugar divergente ao da civilização.


Deliberam à urina, às fezes, ao vômito, ao suor, lugares catalizadores e higiênicos que conduzirão a escatologia a um espaço obsceno [1], escondido à luz da civilidade, diferente dos viventes da natura que excretam publicamente. A excreção pública é escatológica. A excreção canalizada é higiênica e civilizatória. O que separa a sociedade da natureza, entre outras coisas, é a vergonha e canalização de seu excremento.


Pensemos – nas firulas da língua portuguesa – que a própria ideia de escatologia nos traz uma duplicidade necessária para compreender a civilização. Por um lado, sua definição coprológica e excremental, ligada ao nojo e ao desejo rápido do descarte. Do outro lado, escatologia também como o estudo da pós-morte, do fim do mundo. Não há em ambos uma mesma raiz etimológica, mas não deixam de ironizar (por acaso) a própria civilidade apartada da natureza, os cidadãos natimortos, artificiais, reborns, que escondem ou canalizam os seus excrementos, enquanto temem a morte (a fisiologia da terra), o medo de ser excrementado pelo fim, jogados publicamente no solo, na pouca civilidade higiênica da decomposição post-mortem.


A crítica é excremental pois é fisiológica. Pensemos que, se por um lado os fluidos corpóreos são eliminados na singularidade do sujeito e delimitam, portanto, o aspecto da solitude humana – a trajetória vida-morte de um corpo único – a crítica faz parte da fisiologia relacionada à relação (Ontológica) e ao fenômeno. Quero dizer: A crítica é sempre um excremento que depende de outro corpo para ser excrementada, seja este humano, infra-humano ou pós-humano. 


A crítica é excremental pois é fenomenológica e, como já atualizada em Merleau-Ponty, pode e deve ser excrementada não só pelo verbo, mas por todo o corpo – como o costume da excreção, inclusive. A ação e a reação de Newton têm por meio conector, aquilo que seria mais desenvolvido na década de 60, nos estudos literários e artísticos: a recepção. É esta a digestão cerebral que, na química e nos processos psicológicos, transmuta um corpus fagocitado por outro em excremento – crítica/reação. A crítica sempre é canibal na medida em que reage. Contamos aí com Duchamp (2008)[2], precisamente falando da sequência fágica de uma criação artística e sua permanência e também David Lapoujade (2017)[3], explicitando que “percepção é participação”.

 

Pensemos, então, numa rápida associação com a boca: A Fenomenologia pode ser analisada como o ato de um corpo comer um outro num tempo e espaço – Percepção – digerí-lo em suas variadas decodificações, selecionando aquilo que de melhor lhe nutre – Recepção – e excrementá-lo, como um novo corpo, a um outro tempo e espaço – Crítica.


Sendo a crítica fisiológica, é, portanto, democrática, inerente, socialmente feita e estabelecida. Tal lógica não é comportada pelo sistema de arte ou pelas classes de uma academia de belas artes, visto que – para Eles – a Crítica não deve ser excrementada, mas canalizada para tornar-se parte da civilidade artística. É a canalização que torna Bárbara Eliodora, Aracy Amaral, a semana de 22, Jacques Leenhardt, Sábato Magaldi, Jean-Claude Bernadet, Duchamp, name-dropings. 


Para a civilidade não é possível que a crítica seja excremental, pois o excremento é público e a Arte não é. Se o espectador está emancipado, ainda não se emancipou como crítico, não por não exercer sua excrementalidade pós-recepção, mas pela própria canalização do sistema da arte.

 

A Arte é parte fundamental da civilização e não da natura.., portanto, canalizada é. A arte pública, antes de ser arte, é pública e, logo, será recepcionada e digerida por todos – como banquete – excrementada na merda libertária da democracia. 

[1] “As pessoas do shopping não transpiram, no shopping não há cheiro de suor, só há cheiros sintéticos,
cheiros de produtos abstratos.” (BISPO, dos Santos Antônio. A terra dá, a terra quer. São Paulo, Ubu Editora / PISEAGRAM, 2023, p.15)

[2] BATTCOCK, Gregory. A nova arte. São Paulo, Perspectiva, 2008.

[3] LAPOUJADE, David. As existências mínimas. Rio de Janeiro: Editora n-1, 2017.

Imagem em diálogo: Merda de Artista, Piero Manzoni, 1961

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