
Imagem: Abaporu, Tarsila do Amaral, 1928
Virgínia Chorou
Por Padmateo
Fevereiro. 2026
Caro leitor brasileiro, recomendo que, antes de seguir as próximas orações deste ensaio, ponha em seus headphones Lágrimas Negras, João Gilberto ou qualquer uma do Adoniran. Tome seus lenços, seu tempo, suas vontades e não intimide suas lágrimas. Lembre-se, enquanto você lê o texto, o texto também te lê, e guarda os teus segredos entre uma vírgula e outra. Sem olhos e sem boca, o texto respira e chora nas nuances da pontuação.
Numa terra radiosa vive um povo triste.
Aquém da saudade ser uma palavra legitimamente brasileira, é assim que se iniciam as reflexões de Paulo Prado, em seu livro Retratos do Brasil – Ensaio sobre a melancolia. Como poderia um país, sobre as serpentinas carnavalescas, o prazer secular, a cerveja gelada, o jeitinhobrasileiro e o humor histriônico, ter como ponto nevrálgico a tristeza? Como é possível chorar e sorrir ao mesmo tempo ou assobiar, chupar cana? O carnaval da quarta e as cinzas do carnaval? Para o autor, a obsessiva cobiça pelo rápido enriquecimento e a luxúria colonial são partes fundamentais na coexistência dessas contradições: a construção de uma alma miscigenada melancólica do brasileiro.
A melancolia deságua no Brasil como commodity europeia do tempo, em 1500, na invasão portuguesa. Um mal branco - Xawara. A gravura Melancolia I (1514), de Albrecht Dürer, por exemplo, funciona como um grande espelho ocidental, da crise subjetiva do período, marcado pela transição da solidez religiosa medieval, para as contradições da racionalidade e sensibilidade do antropocêntrico. Na obra observamos a cobiça pela perfeição e ordem, mas também do desbravamento do desconhecido e da humanidade ínfima, mediante a um mundo, agora, em que deus está morto. A simbologia do mar ao fundo, por exemplo, engolfando o horizonte. É por este mar que Portugal desloca sua melancolia, frente a sua própria nulidade renascentista e a desembarca no Brasil.
Pisando em terra firme, são as vergonhas expostas, vide Caminha, o novo parecer de um corpo, outrora enrijecido pelo pensamento medieval do inferno, para a permissão humana-divina aos prazeres da carne. O estupro como método colonial de controle, no limiar entre a moral edênica, matrimonial, cristã e eugênica. Assim surgiram, em terra, seus filhos tristes, os mestiços, os brasileiros, na contradição evidente entre o prazer e a dor, o gozo e o sangue, a serpentina e a tristeza, a cana e o assobio, a cor e o trauma.
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Há qualquer metáfora deste Brasil, de Prado, nesta série seguinte:
Manchete na Veja em 12 de Fevereiro de 2026: “Não há mulher tão relevante no Brasil como Virgínia”.
Disse Gabriel David (talvez com algumas edições da própria revista no dia 15 de Fevereiro, após a força polêmica da frase), presidente da LIESA – Liga independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro.
A Grande Rio, Escola em que Virgínia foi rainha de bateria, homenageou o manguebeat e Chico Science, com o tema: A Nação do mangue.
Disse Chico ou Francisco: “Da lama ao caos, do caos à lama, um homem roubado nunca se engana”
Virgínia diz: “Minha fantasia representa o meu sentimento pela Grande Rio e a bateria do mestre Fafá! O pulsar forte e acelerado, que move toda uma comunidade! O coração das pessoas, o coração da bateria, o meu coração”
A grande Rio diz que o seu objetivo com o tema era antropofagizar influências globais e locais, criando uma sonoridade única e um discurso crítico sobre desigualdade social, como fez o manguebeat.
Disse Chico ou Francisco: “Computadores fazem arte. Artistas fazem dinheiro”
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Prado afirma que a neurótica cobiça pelo ouro foi outra chave na construção melancólica brasileira e aqui o entendamos como monocultura: pau-brasil – açúcar – minério – café. Não havia um interesse inicial de povoamento ou administração local, mas de um frenético enriquecimento, com as plantations, para um posterior abandono da colônia e retorno rápido a Portugal. É no coração da monocultura que nasce a saudade, sentimento legitimamente brasileiro, do branco em sua ilusão colonial do enriquecimento desenfreado, sob o desejo do retorno aos Fados; O banzo atlântico, do corpo negro diaspórico, comendo a terra da Bahia de mesma geologia do Benin; E a saudade vermelha de Pindorama.
O mestiço brasileiro, um legítimo saudoso.
Caro leitor, nessa altura do texto, possivelmente a sua playlist já avançou e talvez esteja tocando “Tristeza”, do Jair Rodrigues. Ele suplica a melancolia que o abandone, num ritmo célere de partido alto, o que nos faz pensar que talvez a tristeza já o tenha abandonado e lhe restado apenas o vício da emoção, amiga dos compositores. Ou, talvez esteja escutando um samba miúdo de Elis, com a “Tristeza do Carnaval”, nos lembrando que ainda há Quarta- Feira de Cinzas. Talvez Nelson Cavaquinho, com “A flor e o espinho”, em que sambando pede a interrupção de sorrisos, para que baile com sua melancolia. A Maloca de Adoniran, sobre o desgosto de um despejo, a Alegria de Tom Jobim, que dura menos que a tristeza. Continuemos.
Coloquemos lado a lado a escultura Melancolia (2012), de Alberty Gyorgy e o Abaporu (1928), de Tarsila do Amaral e em ambas perceberemos uma atmosfera melancólica semelhante. O escultor, tenta expurgar seu luto familiar, através da escultura instalada na Suíça, emulando a sensação de vazio da melancolia e da saudade, ao passo que também encara o seu próprio interior, com o design de sua cabeça voltado para o centro, permitindo-o olhar para o horizonte detrás. Por outra perspectiva, talvez mais esperançosa, podemos pensar que esse vazio está preenchido por uma paisagem e seu estado é justamente a conexão das histórias passadas (a paisagem que caminhou até chegar ali) e seu presente (chegar-ali na paisagem).
Do outro lado, o Abaparu não é vazio, mas carrega o peso de devorar carne, a sua, a do outro. De igual forma, olha pra si mesmo e pro seu passado, não por um design escolhido pela artista, mas pela ideologia (antropofagia) escolhida por todo o movimento. É desse período em que emerge as teorias de Prado. Podemos dizer, à luz dos dois casos, que a melancolia é estar em si mesmo e ao mesmo tempo no tempo que foi. O modernismo brasileiro conseguiu, ineditamente, criar odes ao mestiço, o filho triste. O movimento tem um quê carnavalesco, justamente por dar cor e movimento (ainda que gringa, ainda que de uma elite cafeicultora paulista, ainda que) a tristeza inerente do Brasil, a sua paisagem-até-ali, a sua história:
Macunaíma morto em solidão, o desejo de ir em Pasárgada para o mínimo de legitimidade, as vidas secas, a cantilena bachiana, o trapiche, a favela, a vereda, o atropelamento da estrela, o operário, o engenho, o Orfeu, o anjo torto safado, o emigrante, retirante, o mangue, a noiva, o Black-Tie, “As confrarias”, que brindavam no teatro, pela colérica dramaturgia de Jorge Andrade, a saga de uma mãe gentil, Marta, pelo sepultamento de seu filho, Jorge, em alguma das confrarias Mineiras. Ela diz: “Venha! contarei a você – e a quem quiser ouvir – a verdadeira estória de meu filho.” O triste mestiço brasileiro.
Assim fez Heitor dos Prazeres, homenageado pelo enredo da Unidos da Vila Isabel. Assim a tropicália e o manguebeat.
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Há qualquer metáfora deste Brasil:
Manchete na CNN em 18 de Fevereiro de 2026: Virgínia passa perrengue com fantasia na Sapucaí: “achei que ia chorar”.
Foi justamente o coração de plumas, de 15 kg, que retirou de suas costas. O peso do coração... o coração partido em plena avenida.
Quase chorou. Mas chorar para quê?
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Caro leitor brasileiro, precisamos aqui finalizar. É quarta de cinzas. Te indico que traga um tônus mais vibrante a sua playlist, agora, para que não saia sobre o peso do Brasil, mas sobre a ginga brasileira. Talvez em seus ouvidos tenha passado Maysa, Cauby, Benito, Nelson Ned. Te recomendo uma cerveja, agorinha, pra brindarmos esse final, ao som de “O sol nascerá” e “Corra e olhe pro céu” de Cartola, ao “Juízo Final” de Nelson Cavaquinho proclamando o fim da maldade, o “Tá escrito” de Pilares, erguendo as cabeças abaporus. A "Mulher do fim do mundo" de Elza Soares.
Como poderia um país, sobre as serpentinas carnavalescas, o prazer secular, a cerveja gelada, o jeitinhobrasileiro e o humor histriônico, ter como ponto nevrálgico a tristeza? Em 1989, sobre o samba-enredo "Ratos e Urubus: Larguem a minha fantasia", o genial carnavalesco Joãozinho 30 decidiu levar o lixo como luxo para a Sapucaí, como o poema concreto (e modernista) de Agusto de Campos. Num passeio crepuscular com sua assistente, deparou-se com uma mendiga, em qualquer rua carioca, que usava trapos mendigais com uma personalidade estética modista. Aí encontrou a história contraditória do país. O carnavalesco convidou vários mendigos da cidade para desfilarem sobre a passarela do samba, com uma imensa placa que atravessou também a avenida: “Atenção, mendigos, desocupados, pivetes, meretrizes, loucos, profetas, esfomeados e o povo de rua: tirem dos lixos deste imenso país restos de luxos”.
Esse povo triste brasileiro, os mestiços das seivas melancólicas ocidentais, pós-medievais, sorriam, gritavam, bailavam, sobre trapos de plástico, pneus e refugos. O abre-alas abria alas com “O banquete dos desvalidos aos pés do Cristo mendigo”, com um Cristo redentor coberto por lona preta, devido a uma ação judicial da arquidiocese carioca. O que poderia ser um luto ao artista, foi uma potência, justo a sua inventividade nacional, ao colocar uma faixa sobre o monumento ofuscado: “Mesmo proibido, olhai por nós”. No samba enredo, cantado por escola, público, jurados e comentaristas, esse povo brasileiro, mestiço e triste, um grito de eternidade: “Reluziu, é ouro ou lata, formou a grande confusão, qual areia na farofa, é o luxo e a pobreza, no meu mundo de ilusão. Xepa, de lá pra cá xepei, sou na vida um mendigo, da folia, eu sou rei. Sai do lixo a nobreza, euforia que consome, se ficar, o rato pega, se cair, urubu come”.
Numa terra triste vive um povo radioso.