

Imagem: A Festa, 2021-2024. Fotoperformance, série: Viadinhos. Breno de Sant'Ana.
O parquinho cuir
Por Padmateo
Sobre a série "Narrativa de Si",
de Breno Sant'ana,
o espetáculo "Criança Viada: ou de como me disseram que eu era gay",
de Vinícius Bustani
e a exposição "Vico e a exposição cintilante", de Vico.
Fevereiro. 2026
Me deparo com um universal brasileiro. Um espelho, um portal no tempo-espaço. Me situo: estou no Museu de Arte da Bahia. Ou seriam os recreios escolares com cheiro de lancheira? Estou na exposição da 10ª Edição da Mostra Pierre Verger. Ou no banco de reserva das aulinhas de futebol? De frente à fotografia de Breno de Sant’Ana. Ou no meu quarto, enrolada ao cobertor do Mickey Mouse, ou na toalha do Cebolinha, sem entender muitos porquês de porquês? Encontrar a foto da criança-Breno, com suas mãozinhas sobre a cabeça, imitando orelhas, talvez de coelho, me fez voltar automaticamente à minha criança sobre os saltos, perfumes e batons de minha mãe, mas principalmente perceber minha adulta, sobre saltos, perfumes e batons meus. Não só, os ecos fantasmáticos que doíam e estancaram: viadinho.
Lembro daquela da Hebe Uhart: “não se nasce escritor. Se nasce bebê” e sucessivamente brinco de alterar sujeitos. Não se nasce fotógrafo, crítico, carioca, baiano e nem mesmo contemporâneo. Aquele embate entre a ciência, os kardecistas e a Beauvoir: se nasce viadinho ou bebê?
É um universal brasileiro: viadinho. O bicho, que contém mil bichas. Não por acaso, na mesma semana, depois do encontro de minha criança com a criança-Breno, estive no espetáculo Criança Viada: ou de como me disseram que eu era gay, com direção da inacreditável Paula Lice e atuação de Vinícius Bustani e na exposição Vico e a exposição cintilante, com curadoria do inacreditável João Gravador e obras da própria Vico cintilante. Pareceu-me então, de fato, que aquela fotografia de Breno abriu um grande portal sobre a parede, me engolindo como uma Alice, sem maravilhas e apátrida. Achei que minha adulta pudesse brincar de imagem, um tanto, com minha criança e com essa de Breno, com essa de Vico, com essa de Vinícius. Sim, a fotografia de Breno abriu um buraco de minhoca no território soteropolitano e nos sugou para um parquinho cuir, sem adultices – sem boletos, burocracias de artista e, principalmente, sem ofensa. Lá nos encontramos.
Disclaimer: Caro leitor_, atenção! Aqui não escreve uma crítica, mas uma criança fabuladora. Leia como Lego.
Encontrando a criança-Breno
Ao chegar no parquinho cuir, a primeira criança que encontrei foi a mesma que me convidara pro tobogã, Breno, com suas mãozinhas de coelho sobre a cabeça. Ele sorriu, repartiu a pipoca e me disse que estava num esconde-esconde, caçando as variações da palavra Viado no Brasil. Já deveria ter encontrado umas 40, completou.
Breno é uma criança-artista, nascido na favela do Cavalo de Aço, na Zona Oeste do Rio de Janeiro e ouviu: viadinho! Ao lado de sua fotografia já citada, que parece uma comemoração infantil de aniversário, quatro imagens suas em diversos pontos de seu território (Zona Oeste), numa espécie de vogue hands, capa da Elle, emulam chifres de veado delineados pelos seus braços. É uma brincadeira. Um jogo da memória quando desarquiva e anarquiva seu próprio tempo; Uma mímica, quando faz o próprio trauma dançar, ressignificando tudo – conseguem adivinhar que bicho sou eu? -; Um quebra-cabeça, quando articula a taxonomia do bicho a sua própria existência: “É um animal de grande porte, chega a uma altura de 1,2 até 2,4 metros. Este, especificamente, mede 1,90 de altura”; Um esconde-esconde, quando nos lembra que a camuflagem é uma das habilidades desenvolvidas pelo viadinho, para escapar do predador. Ambas as imagens comemoram. Se a da criança-coelhinho um aniversário, a do adulto-vogue-veado a própria vida. Como se Breno fizesse as ruas da Zona Oeste sua runway e a categoria fosse ‘vivíssima’. Viadinho unheimlich.
Olho a criança-das-orelhas-de-coelho e me lembro do meu livro dos 9 anos, da Eva Furnari. Felpo Filva era um coelho, poeta/artista solitário. Difamado e excluído na infância, por ter uma orelha menor que a outra e por não ser um coelhinho dentro dos padrões esperados a coelhos, esticou-se, redobrou-se, pra tentar fazer a norma caber no seu possível. Era “um coelho com alma de tartaruga” dizia, não era coelho, era poeta. Foi uma literatura cuir pra minha infância estranha, minhas orelhas estavam no lugar, mas tinha algo disforme, se via no riso e no olho, na repreensão de andar mais rígido. Lembro como agora, das últimas páginas do livro, uma partitura musical e uma música brindando “orelha curta não precisa alongar, orelha longa não precisa encurtar, orelha reta não precisa enrolar, orelha torta não precisa esticar...”. Felpo Filva foi minha primeira Lady Gaga.
Em uma das imagens, uma placa amarela de trânsito com a mesma silhueta no fucking shay parodia a do Drummond. Viadinho no caminho, bicha na estrada, etc etc. É o momento em que o adulto encontra a criança novamente. Explico o gráfico da violência: Na infância, antes de te tornarem viadinho, não há taxonomia que enclausure qualquer expandido. O movimento é a dança, portanto, desmunheca-se. É depois do código, da castração, em termos psicanalíticos, que a criança se murchará pela linguagem – aprenderá a ouvir: seja homem, aprenderá a falar: homem. Fica uma carapaça rija na busca de uma adulteza, diz-se normalidade, e uma criança escondida. Breno acha a criança de volta, desse esconde-esconde e é no momento que aparece, na rua firme, na placa de trânsito, no Museu, na crítica, na memória alheia, que se torna novamente a criança desmunhecada, aparecida, presente, visível. Todas as crianças aparecem junto dele.
1...2...3... salve todos...
Encontrando a Criança-Bustani
Ao longe uma criança só, no balanço. Nos aproximamos. A Criança-Bustani usava um vestido e uma tiara na cabeça. Como Breno, alguém um dia lhe disse “viadinho”. A criança nos pergunta – qual seu nome? Seu signo? Seu animal favorito? -, ele responde: o meu é uma Baleia.
Paula Lice dirige o espetáculo, uma diretora que consegue em tudo ter criança, fazendo do todo uma traquinagem estética. Vinicius se alterna entre personas, que contam a sua biografia do erê que um dia intitularam “viadinho”. Se Breno utiliza seu corpo como potência de um devir-animal, Bustani utiliza a palavra. Sua mãe lhe telefona, no meio do espetáculo, interrompendo o ato: “meu filho, e agora? Como te chamo?”, responde ele: “de Viado!”.
É um espetáculo-caixinha-de-música. Na cena “Opereta segrega viado” um Tom Zé parodiado a thriller. Notas bemóis e uma própria voz fantasmagórica, erige ao público os horrores ouvidos por uma criança, que um dia, pela linguagem, traçaram um destino.
Vera Iaconelli, num posfácio ao “O caderno rosa de Lori Lamby”, nos trará aquela expressão freudiana: “sua majestade, o bebê”, em transformação intensa a partir da revolução sexual dos anos 60. Ou seja, “o bebê-majestade” deu lugar a uma “criança-estorvo”, porque mais importante era que suas genitais fossem oráculos de seus próprios futuros e que deles não se desviassem. O prazer em cuidar de uma criança, tornou-se a prova de resistência de não a deixar desviar-se do puritanismo da normalidade. Crianças desmanteladas, com a cabeça separada do corpo, como no boneco Ken que Bustani desmonta ao vivo.
O espetáculo é picotado entre esquetes, como era a cabeça, como é a memória, como brinca uma criança. A criança-Bustani e a criança-Lice, juntos, passam por esses entremeios, do corpo e da cabeça, separadas pelo adulto ocidental e utilizam esses fragmentos cênicos como bordados, pra unir novamente um corpo-todo, um coração brilhante, unir novamente o adulto a criança, deixar ela desmunhecar, como Breno.
Agora somos quatro. Eu, criança-Breno, criança-Bustani, criança-Lice, no parquinho cuir, e agora podemos brincar de barra manteiga.
Encontrando a Criança-Vico
Sem dúvida, meu livro favorito da infância, aquele que li, reli, treli, foi Angélica, da Lygia Bojunga. Se Felpo foi minha Gaga, este, certeza, foi meu Bowie. Narra a história de um porquinho, que descobre que é porco pela linguagem, quando os outros lhe apontam, Porco! com um tanto de peso na palavra. Ele não entende a exclusão, a solidão imposta pelos colegas, as piadas e decide então mudar. Transiciona de PorCo para PorTo, como a vastidão do mar. Veste um chapéu, pinta seu corpo com um sol risonho e um peixe, se enfeita em flor num pacto da moda. É feliz assim, finalmente encontra sua força, longe da língua perversa.
Vejo no parquinho cuir uma criança que segura este livro em uma das mãos e na outra um fantoche de elefantinho. Encontramos a criança-Vico.
Sua exposição brincou no Ativa Ateliê com curadoria de João Gravador que escreve: “Talvez seja aí que o criançamento dialogue mais profundamente com o que já se anuncia na exposição: a recusa de uma identidade pictórica fixa.”. Sinto ao visitar a exposição que aqui-passou-uma-criança, vestiu mil roupas e as jogou pra cima, fez os tamancos da mãe caberem em seus pés como corda bamba, misturou perfumes e batons em alquimia, experimentou-se quebra-cabeça da moda, do gesto, da fantasia (nos termos ainda psicanalíticos) e seguiu. Sinto: onde está Vico? Me parece que a criança não está presente, mas todo o seu rastro deixado em sua passagem, como uma criança vento de Ziraldo, ou um cometa cintilante.
A criança passa correndo, peralta e deixa uma bagunçabeleza, abajur sobre cadeirinha, quadros desviados da métrica da parede, barquinhos espalhados, cobertas cobrindo corpos, mãe, vó, titia queer. Onde está Vico? Olhando para as obras percebemos que assina a sua própria traquinagem, não no estilo datado de propriedade burocrática, mas fazendo a assinatura brincar com a própria cena, como dito: eu brinquei bonito. Onde está Vico? Em todo o canto e em lugar nenhum e, talvez, nem outra exposição dê conta de responder a uma criança articulada no pega-pega, no esconde-esconde, que nunca será capturada.
Porto, em sua aventura nômade e livre, encontra sujeitos estranhos pelo caminho e se juntam no grupo cuir: um elefante velho neurótico que tinha medo de coisas grandes e preferia o diminutivo, um jacaré sem rabo e uma jacaroa que espirra ao ficar nervosa, um sapo cheio de opiniões, mas principalmente Angélica, uma cegonha, que prefere seguir livre, longe da família, a sustentar a mentira de que são as cegonhas que trazem os bebês. São 6 personagens, como somos nós agora, juntos, no parquinho cuir: Eu, criança-Vico, criança-Gravador, criança-Lice, criança-Bustani, criança-Breno. Resolvem fazer um teatro, autobiográfico, como o da criança-Bustani, pra narrar a vida da cegonha criança, que estava desencaixada de suas verdades, a de que bebês nascem bebês.
Em uma das passagens dramatúrgicas, expostas no livro, recontam o momento em que a cegonha, insatisfeita resolve desnascer. “Explicador: e a Angélica foi diminuindo cada vez mais. Pai: minha filhota, fala com o papai, diz o que você está sentindo. Angélica: Pa-pai. Ma-mãe”. Angélica se tornou novamente uma criança. “Lua: ela agora só sabe engatinhar, vô”, “Lux: Vô, vem cá, me explica uma coisa: por que que quando a Angélica vivia infeliz dizendo que não queria ter nascido ninguém ligava, e agora que cada hora ela tá chegando mais perto de não ter nascido todo mundo vive chorando? Por que, hem?”.
A personagem entrou num buraco de minhoca, como entramos no buraco-negro da fotografia de Breno, alterando todo o tempo-espaço e foi voltando no tempo. “Lua: Olha, papai, a Angélica já tá com uma perna dentro do ovo”. Aos poucos estava sendo engolida pelo ovo, pela possibilidade de nunca ter existido, logo, a família puxava o que ainda restava de sua criança, mas só conseguiriam se finalmente estabelecessem uma promessa coletiva: “Mãe: Promete ajudar a Angélica a ser feliz. Pai: Prometo”.
A Angélica de repente eclode o ovo, nasce, criança e vira uma adulta-criança, livre, encontrando outros adultos-crianças, livres e fazendo seu parquinho. Finalmente, como Angélica, podemos agora fazer vogue hands, nos colocando chifres animalescos e monstruosos, dizendo: pose, baby! Fazer um espetáculo transformando trauma em beleza e convidar sua mãe pra assistir, e não só, subir no palco ao final e fazer um convite, psicanalítico, a mães e pais que queiram se curar da homofobia. Pintar peraltice sem medo da forma. Fazer uma crítica de brinquedo.
Me despeço do parquinho e cada criança toma um rumo. Estou no Museu de Arte da Bahia. Na 10ª Edição da Mostra Pierre Verger. Na frente da obra de Breno de Sant’Ana. Olho o viadinho, a criança com orelhinhas de coelho, o público de adultos que apreciam as diversas fotografias do espaço. Penso:
Se nasce bebê.