



ATIVOS, PASSIVOS, AFEMINADOS E TWINKS: TRANSGRESSÕES
Sobre o livro Superstar, de Pedro Minet
Por Douglas Sacramento
Julho. 2026
Em um texto clássico do filósofo francês Georges Bataille, intitulado O erotismo (Autêntica, 2017), o autor aponta caminhos para entender como o erótico está num campo de batalha entre a interdição e a transgressão. Parte da ideia de que, numa sociedade de base cristã - na qual o ato sexual tem como função principal a reprodução -, ao se caminhar por outras estradas, a carga erótica aparece, mas foge do objetivo inicial. Surge, então, o discurso do interdito em torno do sexo sem o intuito reprodutivo e a noção de transgressão, quando ele é praticado sem essa função.
Assim, após passear pelo erótico e pela guerra, pela prostituição e até pela beleza, o autor volta seu olhar para a transgressão. Tudo aquilo que é interditado por normas sociais, religiosas e afins ocasiona uma tensão no sujeito, uma vontade de romper com o que está interditado. Aparece a vontade de transgredir. Para Bataille, os interditos e as transgressões compõem a vida social, e por isso, tudo o que causa fascínio e está numa redoma dos valores tradicionais, pautados num discurso de razão, pode ser transgredido.
Transgressão é o conceito que me chama a atenção após a leitura de Superstar (Patuá, 2025), de Pedro Minet. O autor carioca, cuja produção literária está pautada em torno de homens gays, do erotismo e da morte, já tinha dado os primeiros contornos do seu projeto literário em 2023, com o livro Coleção de meninos mortos (Urutau, 2023). Este mais recente livro de contos, se divide em duas partes, a primeira, “Mal Secreto”, reúne doze contos, e a segunda, “Superstar”, apresenta mais onze contos; ao todo, vinte e três narrativas curtas compõem o livro. Na obra, as fronteiras da realidade estão borradas; algo sempre rompe a normalidade desses meninos que são protagonistas, e as transgressões não ocorrem apenas com o real palpável, organizado e factível. O erótico e a morte se fazem presentes, ampliando a atmosfera nublada do livro; outras formas de experienciar o sexo aparecem, dando vazão à violência, aos fluídos corporais e ao uso de aparatos tecnológicos contemporâneos.
ENTRE O GOZO DA MORTE E O GOZO ERÓTICO
Bataille defende que, no erótico, o sujeito se aproxima da morte. No momento do orgasmo, esse ápice corresponderia à la petite mort (a pequena morte) e, por essa aproximação com Tânatos, o sujeito faz sexo. Existe algo que o atrai desde a pré-história para esse encontro, inclusive quando a função do ato sexual não é apenas a reprodução.
Nesse encontro entre Eros e Tânatos, Minet apura seu olhar para aquelas relações que não são facilmente representadas na literatura. No livro não há representação do casal típico da comédia romântica ou do comercial de margarina, pelo contrário, existe constantemente uma tentativa de desconstruir e abalar os alicerces discursivos sobre amor e relações afetivas. Num dos contos, “Sonho dentro de um sonho”, estruturado como uma conversa no aplicativo de encontros amorosos Tinder, entre dois caras distintos, as conversas são diferentes. No primeiro, existe a descrição prolongada de uma relação BDSM, na qual há toda uma tentativa de reproduzir uma dinâmica de submissão, relacionada ao fato do personagem ser um femboy. Já no segundo, com um outro homem, a conversa ganha contornos mais existenciais, abordando crise no trabalho e luto. Como se o modo líquido de se conectar com pessoas por meio de aplicativos trouxesse essa atmosfera onírica: conversas iniciam e terminam num despertar.
Implora, bebê... Eu sufoco você com a minha rola... Quer? Quer bebê?
Quer a rola do pai? Quer leitinho? Cadê as fotos? Achei que ia mandar foto... Nossa que delicia... Quer me pedir algo? Tem brinquedo?
[...] Gosta de ser estuprado? Estuprado, é... Já foi estuprado? Mas queria? Acho que estou me apaixonando... Vou te estuprar... Vou ser seu cafetão, eu acho... Te enchendo de surra e rola dos outros... Tenho um amigo de Botafogo, vou pedir pra ele reunir uma galera pra te fuder... (p. 24)
Portanto, o erótico não se distancia da morte, e toda uma bibliografia sobre essa relação está costurada nos contos desse livro. O melhor exemplo é “Superstar”, conto que dá título à obra e que, para mim, é o ponto alto da seleta. Nele, acompanhamos um personagem que, ao mesmo tempo em que trabalha como garoto de programa, percorre um Rio de Janeiro de ruas vazias e distante dos pontos turísticos, sem deixar de refletir sobre a própria vida, os pais, a vida acadêmica e o trabalho. Nesse conto, são citadas grandes produções que abordam o erotismo e esse lugar do submisso, como Lolita e Salò, ou os 120 dias de Sodoma, o que desemboca no vídeo caseiro mostrado pelo contratante. É uma interessante aproximação com a vida pessoal caótica e conturbada do protagonista, como se entrasse num outro espaço-tempo, em que os problemas não existissem mais, mas ressurgissem por meio da conversa, da música da Kylie Minogue, do vídeo com cadáver, porrada e scat.
Na próxima cena começa o Inferno. Num quarto apertado o menino australiano está sendo estuprado pelo grupo inteiro (exceto, claro, o príncipe dormente). Eles se revezam, metendo um após o outro, espancando-o ao mesmo tempo. Nariz, boca, rosto inteiro contundido, ensanguentado. Parecem possuídos, completamente demoníacos. Um dos velhos pede que um menino saque um canivete do bolso, corte os cachos do garoto. O australiano balbucia, fios brilhantes caindo, ficando grudados no catarro, sangue, lágrimas... Suplicando incompreensivelmente, espirrando, babando, como um boneco de cera derretendo ao vivo, decompondo-se antes mesmo de morrer. (p. 158)
Por apresentar transgressões das mais variadas formas, os contos não possuem estrutura tradicional, e suas espacialidades sempre estão no âmbito do privado, do escondido, em quartos de hotéis e casas no meio de uma cidade grande como o Rio de Janeiro. O leitor encontra um híbrido de conto, novela e poemas e, por vezes, citações diretas de outras produções artísticas. Ou seja, os personagens apresentados no livro são formados por uma constelação de referências, e como é bom ler um livro em que se percebe a pesquisa feita pelo autor. Isso fica evidente quando o personagem, no conto “Mal Secreto”, lê O lago, de Kawabata, e ouve, na livraria ao lado, o rádio tocando uma playlist que se transforma num musical, com músicas do cancioneiro popular que falam sobre desejar homens:
Leio 30 páginas. Depois que o narrador, Ginpei, leva um soco do namorado de uma colegial que seguia até em casa, chamo um Uber; dá pra ouvir na livraria ao lado uma playlist de bossa nova, MPB, um pouco caótica e desorganizada. O que capto das melodias e letras se mistura com outras que conheço, e minha imaginação completa e compõe sozinha algo semelhante a um musical, fragmentado:
[...] Quem cala sobre seu
Corpo
Consente na tua
Morte... (p. 37)
Assim, na primeira parte os contos caminham para que, na segunda, a diluição entre autor e personagem ocorra. Em alguns momentos, o leitor não sabe se o personagem que narra é o mesmo ou se mudou, tamanha é a precisão da costura que Minet faz entre os contos, embora eu considere a segunda parte mais interessante que a primeira. Também é perceptível como os elementos da transgressão ocorrem: da conversa no Tinder, passando pela personagem fazendo seleções para conseguir trabalhar no que quer, por outro conto, em que uma outra se vê num filme pornô - um cine +18 -até desaguar na prostituição, no sexo com fezes, catarro, lágrimas e morte. Como o título dá indícios, o superstar é uma estrela em ascensão; esse caminho em ascendente perpassa os contos do autor, não para mostrar o lado glamouroso, mas aquilo que está escondido.
Pedro Minet cria um livro intrigante, que foge do que encontramos em grandes quantidades nas livrarias. Não é apenas um livro erótico, é um livro que se constrói nas frestas dos abalos aos pilares de uma vida social tradicional, que recalca determinadas performatividades eróticas. Além disso, é sobre gays: boyfems e twinkies, submissos e cheios de tesão. O uso do insólito, do grotesco e do suspense faz de Superstar um livro noturno, com becos e vielas, propício para derrubar interditos. Pedro Minet transgride.