



CAMINHOS, DUPLOS E ENCRUZILHADAS ARTÍSTICAS EM MÉJÌ
Sobre o livro Méjì, de Marcelo Ricardo
Por Douglas Sacramento
Junho. 2026
I
Lembro de uma certa vez, numa orientação no período do doutorado, com a Profa. Dra. Denise Carrascosa, em que ela comentava como entendia e interpretava a minha pesquisa até aquele momento. Entre suas observações, destacou o diálogo entre minha vivência ancestral e a interpretação dos romances escritos por homens e mulheres negras na contemporaneidade, uma relação que perpassava minha leitura crítica e, ao mesmo tempo, fazia-se visível nas obras analisadas.
Em outras palavras, para muitos escritores e escritoras negras, alinhavar ancestralidade, produção artística e/ou crítica literária faz parte de um modus operandi que lhes atravessa. Denise Carrascosa denomina esse entrelace de Odusciência: “dinâmica hermenêutica feiticeira que, a partir do exercício encorpado da crítica performativa, produz uma consciência ampliada de si e dos seus percursos caminhados e a caminhas desde as singularidades reinventadas da existência negra histórica e comunitária”.
Portanto, quando encontro obras que costuram essas duas instâncias e produzem uma literatura imbricada com os próprios caminhos do sujeito, isso mexe muito comigo, pois também faço esse exercício em minha atividade crítica. Existe uma identificação filiada a uma política de escrita em comum. Assim sendo, a odusciência atravessa os versos e as páginas de Méjì (Editora Malê, 2025), livro do multiartista Marcelo Ricardo.
II
Marcelo Ricardo é um multiartista – se ele não se considera como tal, tomo a liberdade de considerá-lo agora. Escritor de Aos meus homens (Editora Malê, 2021), mestre em Estudos Étnicos e Africanos e doutorando em Comunicação e Culturas Contemporâneas – ambos pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), constrói uma produção que ultrapassa os limites da literatura. Sua poesia estabelece um diálogo com o audiovisual e a fotografia, áreas nas quais também atua como roteirista e realizador. Méjì é seu segundo livro solo, somando-se às participações em coletâneas poéticas. A palavra que dá título à obra vem do Iorubá e significa “duplo”. Na comunidade-terreiro, é o nome dado a quem recebe dois Orixás no processo de incorporação; aqui o termo marca esse segundo livro escrito pelo autor baiano.
A estrutura da obra emula essa duplicidade, presente na estética, nos poemas intercruzados por textos em prosa – de tom ensaístico e, por vezes, teórico – e em alguns poemas estruturados em duas colunas. Dividido em quatro partes, o livro reúne 45 textos, em sua grande maioria poemas, e também incorpora fotoperformances que remetem às questões presentes na escrita. Corpo, vivência e ancestralidade estabelecem conversas com os textos apresentados. A visualidade dos poemas se entrelaça à visualidade das fotografias. Duplos. Méjì.
III
Ao abrir o livro, uma das primeiras coisas que chama minha atenção é o prefácio assinado pelo Dr. Henrique Freitas. Nele, a obra é situada em diálogo com a literatura-terreiro, conceito formulado pelo intelectual ao associar e mapear produções negras escritas e orais que incorporam elementos das narrativas e outros modos de fazer literário partindo do corpo e da comunidade-terreiro, das religiões de matriz africana.
Uma das principais especificidades dessa perspectiva é o caráter multimodal, pois, para abranger tantas formas de fazer literatura, autoras e autores negros fazem uso de diversas expressões estéticas. A noção de literatura-terreiro se aproxima do conceito de odusciência e o complementa, uma vez que o trilhar do caminho ancestral está costurado à obra.
Tal aspecto já aparece exemplificado nos poemas iniciais, em que Exu é convocado:
“Meu Exu comeu
todas as palavras que deixei na garganta
e o que tenho dito é sua própria digestão” (p. 21).
A ancestralidade está inserida no labor literário de Marcelo Ricardo e se articula a outros temas e imagens poéticas. Sua literatura post[hiv]ada, por exemplo, encontra na imagem do sangue um poderoso campo de elaboração simbólica. No candomblé, o sangue é condutor de axé, e aqui ganha outros caminhos ao tratar do HIV e dialogar com as mortes ocasionadas pelo Estado aos corpos negros.
A morte é uma constante no livro, no tom ensaístico das passagens poéticas e prosaicas. Os temas vão e voltam, se completam e se atravessam mutuamente, como no poema em prosa “Sangrar: suíte de pecaminosa piedade”:
A menga liga nós e os antepassados, o Èjè transporta o axé deste egbé; o nosso elo familiar;
As células de defesa (brancas) ajudam a combater infecções formando uma linha de defesa do corpo;
A matança dos 12 do Cabula e a absolvição dos policiais envolvidos no caso;
O sangue absorve oxigênio dos pulmões, nutrientes dos intestinos e remove os resíduos deixando nos rins;
“Agora eu tenho medo de sair sozinha de branco”
“...Quando vocês dão porrada na gente, a gente não sangra igual, hein?” (p. 41)
A vivência de terreiro atravessa todo o livro. Os ensinamentos de uma voz poética que remete à figura da mãe de santo, a presença de Exu, Xangô e Oxóssi, os banhos, os cheiros, as comidas e os animais são elementos que compõem essa vivência e aparecem nos poemas “abô” e “aparaká”. O entendimento da ancestralidade caminha pari passu com uma compreensão de si, do próprio corpo e da comunidade. Esse corpo, por sua vez, também é negro, pertencente à comunidade LGBTQIAPN+ e vive com HIV. Por isso, existe o uso de uma oralidade dupla.
Como todo o livro emula o Méjì, não poderia ser diferente com a língua, assim, palavras em iorubá comuns ao cotidiano do terreiro se misturam ao shade e ao baianês. Um caminho é trilhado e as instâncias não aparecem separadas, mas como constituintes de um todo, criando uma voz poética que ressoa e demarca sua inserção num “nós” poético.
Como dito anteriormente, a literatura-terreiro é multimodal, portanto, o livro apresenta esses diálogos entre expressões estéticas diversas. Os provérbios e as fotografias não aparecem como meros acessórios, mas reafirmam que os temas abordados no livro partem da experiência de um corpo negro que escreve. Esse corpo que a voz poética reitera e chama para o bailado. Corpo rodante, que movimenta a ancestralidade, puxa os mais velhos, os mais novos e os ancestrais para a roda em sentido anti-horário. Uma grande gira.
Penso nisso ao ler os versos do poema “rum de oxóssi”, cuja sonoridade da voz poética lembrou as falas da minha mãe de santo:
e a gente que é preta mesmo sabe...
já não se faz mais como antigamente,
tem gente que ainda mente no nome do santo!
na minha época, a gente nem podia
chamar esteira de adiciça
que a finada lá do fundo corrigia:
“já pode é?”
era tudo segredo! Tudo!
hoje não, o povo filma, fotografa e ainda desafia...
nessas coisas de tiktok. (p. 64)
Outro binômio costurado ao livro é o das instâncias entre vida e morte. De um lado, é evocado esse corpo que vive e experimenta os prazeres do amor, vivencia a força dos orixás que atravessam o corpo da voz poética rodante, retrata sobre o cabelo e as experiências em comunidade e de aquilombamentos na Residência Universitária, localizada num bairro da elite soteropolitana. Ao mesmo tempo, a denúncia é feita: mortes que ocorrem todos os dias, o diálogo com a corrente afropessimista e as reflexões sobre como lidar com os mortos.
[...] Pensar como a morte não é morrer, é arriscar saber ainda o que estamos tramando com ela. Mesmo não vendo a cura ainda, queremos acompanhar cada parte que morre, ao grau que aumenta, a psoríase que esfarela nosso crânio, nossa esperança que fraqueja todo dia, a liquidez que não nos pertence mais. Queremos pensar na morta em sua lonjura, mas considerar sua languidez que se aproxima. Pensar na morte como todo mundo pensa, como pensam na vida sem pensar assim na morte. (p. 37)
Ao final, o otimismo está ali presente, pois o livro também é metaliterário. Marcelo Ricardo está o tempo todo se questionando e tentando compreender como escrever e como a forma tem de dar conta de tanta especificidade e pluralidade. Por isso, o duplo é invocado. É por meio do méjì que habita o escritor negro que se torna possível compreender a arquitetura empreendida no decorrer das páginas do livro.
Com um tom solar e respondendo a esses questionamentos que perpassam a escrita negra, a literatura surge como um lugar de ampliação, que não se restringe à palavra escrita nem às rimas contadas pela métrica canônica. Ela é refrão – como se escutássemos nas ruas, nos terreiros e em toda a Bahia – e vira um coro para entendermos como o corpo negro é mobilizado: “Não escrevemos, cantamos. Não escrevemos, dançamos. Não escrevemos. E tudo que escrevi aqui não descreve lá. Não chega perto” (p. 126).
Méjì é isso tudo e muito mais. É dupla escrita, duplo corpo, axé!
Imagem em diálogo: Juntó - Oxê com Obiri, Ayrson Heráclito, 2026