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ENTRE DARK ROOM E BLACK HOLE: ESCRITA SEM CAPA 

Por Douglas Sacramento  

Maio. 2026 

I

Recentemente, enquanto pesquisava e mapeava obras da literatura brasileira contemporânea que retratam o erótico e suas múltiplas facetas, reencontrei Dark Room (Editora Escaleras, 2021), romance de Rafael Gurgel [1]. Publicado no período sombrio da pandemia de Covid-19 – momento em que o mundo todo vivia com uma pulsão de morte constante –, o livro de Gurgel trata justamente do polo oposto e complementar dessa experiência: o erótico. (Morte e erotismo, nada mais sugestivo para quem pesquisa essas temáticas.) Assim, retirei o romance da estante e o coloquei na pilha – hoje alocada num carrinho – dos livros que quero ler, estudar ou escrever críticas. No final de abril chegou o momento da releitura. Eu havia lido o romance pela primeira vez em 2021, quando foi lançado, e lembrava de ter gostado bastante, apesar de não recordar muitos detalhes da história.

Rafael Gurgel, escreveu  Dark Room, seu primeiro romance é dividido em duas partes – “Caixa Preta” e “Glory Hole” –, e conduz o leitor por espaços de desejo, excesso e experimentação sexual, como se entrássemos, junto às personagens, numa sala escura repleta de corpos em trânsito.

 

O romance nos apresenta duas figuras especulares. A primeira é um autor-narrador sem nome, o que leva o leitor a inferir que pode ter o nome do próprio autor: Rafael – muito comum na escrita em primeira pessoa. Aos 23 anos, ele está recolhido no apartamento de uma amiga, local descrito com estética almodovariana, tentando escrever um romance. Paralelamente, intercalando aspectos sobre o labor literário, a narrativa apresenta André, homem de 43 anos, cuja vida sexual é marcada por encontros diversos e pela dificuldade em sustentar relacionamentos monogâmicos e seus acordos de fidelidade. Enquanto o primeiro é estudante de Letras, o segundo atua como professor do curso de Letras; ambos são homens gays que moram na capital baiana.

II

Em “Topografia do risco: o erotismo literário no Brasil contemporâneo”, Eliane Robert Moraes (2008) analisa como os autores que se dedicam ao tema ocupam zonas de marginalidade estética e editorial. Para a pesquisadora, escrever sobre o erótico pode implicar em ser relegado ao ostracismo ou ao esquecimento. Após passear pela historiografia do final do século XX e início do século XXI, Moraes conclui que muitos dos autores que abordam essa intersecção pertencem a grupos não hegemônicos, ou seja, essa autoria possui perfis – mulheres e pessoas LGBT+, por exemplo –, o que resulta numa literatura que aponta vertentes que estão além do olhar tradicional instaurado pelo homem branco, cis e heteronormativo.

Assim, quando esses sujeitos produzem literatura erótica, acabam também colocando as experiências específicas de seus corpos e do coletivo. Logo, há um “desvio do erotismo”, uma ruptura com a forma tradicional que é conhecida no âmbito teórico. Ainda assim, Moraes salienta que o erotismo continua sendo um tema relegado à margem, envolto numa névoa de moralismo, preconceito, tentativas de mascaramento e vergonha, especialmente em obras que alcançam popularidade. O discurso moral ainda impera quando o assunto é sexo e suas representações.

Esse aspecto aparece de forma contundente em Dark Room, sobretudo nas reflexões de André, corroborando para que o leitor pense o caráter transgressor do erótico diante de uma tradição careta: “[...] sabe aquele segundo que você olha bem no olho da pessoa e sente que quer enterrar o pau no cu dela pra sempre? deeper and deeper and deeper” (p. 52).

No romance de Gurgel, o erotismo não está atrelado ao discurso de moralidade herdado da tradição religiosa ou conservadora. Pelo contrário, o livro apresenta o erótico no seu galope mais escuro e carnal – o entra e sai dos corpos sem culpa ou peso na consciência. É uma escrita descritiva e fluida, inserida nas dinâmicas contemporâneas pelas quais homens gays encontram sexo com facilidade – aplicativos de encontro e relações casuais, por exemplo.

Um olho na página, outro no dedo grosso que urso 2 tá botando na rodela do urso 1. Meu pau tá endurecendo, mas vou continuar só assistindo. É que gosto de homem que amacia antes de comer. E gosto também de quem chega, mete e vai embora. Tem tesão pra tudo. Talvez eu esteja desenvolvendo outro procedimento: escrever enquanto assisto à foda alheia. (p. 78)


Ao final da leitura, uma pergunta permaneceu reverberando: De que maneira as experimentações estéticas contemporâneas podem dar conta desse erotismo gay, urbano, rápido e múltiplo?

Dark Room parece tentar a todo momento responder a essa questão, o que faz o romance dialogar diretamente com procedimentos muito marcados da literatura contemporânea, sobretudo nas similitudes e dissimulações entre narrador e personagem. Ambos narram em primeira pessoa, com capítulos intercalados e diferenciados graficamente pelo uso de letras maiúsculas e minúsculas. Em determinado momento, surge outro André, que transa com o autor-narrador, aprofundando o jogo autoficcional e as ambiguidades identitárias do romance. Talvez, ainda, aludindo a um caso de rebuceteio no mundo gay: “Vamos fazer um pacto? Quando as letras estiverem minúsculas, é André quem fala. Nas outras ocasiões, sou eu, autor.” (p. 34) 

Portanto, há um jogo com a primeira pessoa, esse “eu” que surge plasmado ao autor, mas que também pode não ser ele.. Além disso, a obra incorpora elementos de outros gêneros, ampliando a inespecificidade do romance: há trechos ensaísticos, alterações tipográficas, comentários metalinguísticos e até mapas astrais das personagens, utilizados como recurso de caracterização subjetiva.

62,1% dos personagens do romance brasileiro contemporâneo são brancos. 71,1% dos protagonistas são homens. Apenas 3,9% entre todos os personagens são homossexuais. Quem disse isso foi Regina Dalcastagnè. E cá estou, mon chéri: homem, branco, gay, soteropolitano, estudante de Letras. Eu autor, no caso. Mas, tem André. Igualmente homem branco, gay, soteropolitano, professor de Letras. Salto dos meus 24 aos 43 dele. E esse é um mea culpa xexelento para dizer que lá vem mais uma história de homem branco. Por quê? Porque escrever também é corpo, e esse é o corpo que tenho – mesmo que escrever guarde um tanto de bruxaria, de ocultismo, de revelação, de flagrar o aviso na cortina líquida dos olhos. (p. 29) 

Outro aspecto importante é o uso de capítulos curtos, que estão para além da função de dar dinamismo ao romance. Dark Room é rápido, direto e urgente, no mesmo ritmo dos encontros que descreve: uma foda veloz antes da chegada de outro corpo. Não há perda de tempo. Tudo é muito lubrificado e sem capa, com descrições detalhadas e escritas, calcadas nessa imagem estética. Repito: no pelo e sem capa. 

A vida do autor-narrador se mescla à de André. Relacionamentos passageiros, vínculos voláteis e o sexo não apenas como prazer, mas também como elaboração subjetiva. O romance evidencia o quanto existem demandas sociais, afetivas e sexuais atravessando esses corpos, além do retorno ao passado, da relação com a mãe e a família, das primeiras experiências sexuais e dos desejos infantis.

Quero inclusive fazer as pazes com esta palavra, mamãe. Eu sempre te chamei de mamãe, até que me ouviram chamar assim e disseram que era coisa de viado. Foi por isso que deixei de chamar. Depois, quando já sabia que era, de fato, viado, continuei não chamando. Porque achei que alguma coisa tinha morrido entre nós dois. Em um corte lento e profundo. Mas estou descobrindo uma aproximação. Do jeito que consigo. Porque te amo. Tentando não me machucar o de dentro de você, esperando que você não machuque o de dentro de mim. (p. 40)

As divisões estruturais do romance mostram esse mecanismo de que entender o outro é também entender a si mesmo. Ao escrever a vida sexual de André, o narrador acaba expondo suas próprias práticas, afetos e inseguranças.

Na segunda parte do romance, o cu surge quase como uma entidade profética em torno da qual orbitam as relações sexuais gays. Comer, dar, prever o futuro pelas pregas. O “buraco da glória” apresenta ao leitor que o cu é canal de transcendência, ecoando autores como Georges Bataille, Hilda Hilst e Luís Capucho: “Avisos do cu: [...] Me encha de esperma. Quente. Encontre o mineral em você” (p. 95).

Rafael Gurgel escreve um romance perspicaz, sensual e irônico, com descrições precisas e de fácil identificação para aqueles familiarizados com determinadas práticas do universo gay contemporâneo. Seu labor literário parte da observação cotidiana de seu coletivo, como o uso dos aplicativos de pegação, os encontros casuais e os banheirões. Assim, o “risco” apontado por Eliane Robert Moraes acerca das literaturas de transgressão erótica diante de uma sociedade careta e moralista como a brasileira encontra, em Dark Room, um forte contraponto. O romance expõe larguras e fissuras, o gozo, o pau, o braço e o cu, transformando o leitor em voyeur – e, neste livro, inevitavelmente somos, sem capa.

[1] É natural de Salvador, bacharel em Artes e Letras Vernáculas e mestre em Literatura e Cultura pela Universidade Federal da Bahia. Atualmente, cursa Psicologia. Durante o mestrado, pesquisou literatura, memória e ditadura militar na América Latina.

Imagem em diálogo: Série "Ainda não sou daqui", Wellington Luz, 2024. 

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