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NO MAR CAUDALOSO DOS AFETOS
Sobre o livro Todos nós sonhávamos em ser Carmen Miranda,
Editora Impressões de Minas, 2024, de Kaio Phelipe
Por Douglas Sacramento
Novembro. 2026
I
A afetividade é um tema que me persegue na terapia. Lembro que, quando cheguei aos trinta anos, houve uma mudança e uma urgência em falar sobre isso, diferentemente do que acontecia quando estava na casa dos vinte anos. No imaginário gay, quanto mais velhos ficamos, mais próximos de uma solidão nos encontramos. Lembro que precisei elaborar isso tudo – havia saído de um relacionamento de mais de cinco anos e, ali, percebi que as demandas relacionadas à idade e ao afeto começariam a ser percebidas de modo diferente.
Os amores, a solidão e as relações afetivas que atravessam a comunidade LGBTQIAPN+ são tópicos centrais de Todos nós sonhávamos em ser Carmen Miranda (Impressões de Minas, 2024), livro de contos de Kaio Phelipe que reúne dezesseis narrativas protagonizadas, sobretudo, por personagens gays. Carioca, o autor é um dos editores da Revista O Odisseu, colabora com o Mídia Ninja e publicou também os livros O que entendemos da noite (Isto Edições, 2025), Não existe pecado no lugar de onde eu vim (Editora O Sexo da Palavra, 2022), Para o homem descansando ao meu lado (Editora Nua, 2020) e Como cuidar de um girassol (Patuá, 2019).
II
O binômio amor e solidão ganha novas nuances quando fazemos recortes interseccionais sobre o tema. Sempre fomos bombardeados por representações de casais heteronormativos e cisnormativos nas artes. Quando lemos ou assistimos a histórias de casais que estão no extremo oposto, há sempre novas camadas em jogo. Kaio Phelipe parte desse lugar de enunciação para escrever sobre o amor sem deixar de lado a solidão.
No primeiro conto do livro, “Braço forte, mão amiga”, a diferença de idade entre as personagens – o narrador, acima dos 50 anos, está apaixonado por um recém-adulto – coloca no campo da literatura temas recorrentes na comunidade gay, como as diferentes percepções do que é amor para gerações distintas e o etarismo. Há pulsão erótica e um constante questionamento sobre as normas que definem o que é aceitável ou não num relacionamento.
[...] Só que isso não adiante para meu corpo velho. Eu preciso de cálcio, de dengo. Você não sabe o que é acordar todos os dias com uma angústia no peito, saber a causa e não poder fazer nada. E eu desejo realmente que você nunca passe por isso. É a pior coisa do mundo. Ficar sozinho destrói a gente. É um bicho muito feio, Caíque. (p. 14)
Ao começar o livro assim, Kaio Phelipe já estabelece um tom ágil e franco para abordar as questões que costuram a obra. O ritmo acelerado da maioria dos contos remete à dinâmica dos aplicativos de sexo, namoro e encontros. Com funções diferentes e engrenagens próprias, a rapidez das relações está plasmada na construção estética das narrativas. É o que ocorre, por exemplo, no conto “Os nomes”, em que um homem casado abandona o marido e passa a frequentar saunas e se relacionar com outros homens na noite de sua cidade. O conto segue um ritmo específico – construído em apenas um parágrafo – que representa a fuga do casamento e a agilidade dos relacionamentos pautados no prazer proporcionado pelo corpo de outros homens. Além disso, muitos nomes são inventados pelo narrador, que nem pergunta os nomes das pessoas com quem se relaciona.
[...] Pedi para que elas ficassem acesas, porque gostaria de assistir a tudo, comprovar sua beleza inoxidável, ver seus pelos roçando em meus lábios. Fiquei de olho aberto o tempo inteiro. Vinte minutos. Vinte minutos e eu gozei com seu pau me vestindo, me machucando o ventre, me pertencendo. Naquele minuto, meu. Apenas meu. (p. 61)
A reivindicação do prazer e da liberdade sexual também aparece num texto breve e bonito de José Silvério Trevisan, na parte final da obra fulcral Devassos no Paraíso (Companhia das Letras, 2018), no capítulo “Integrar-se ou desintegrar”. Nele, o autor aborda os espaços demarcados para pegação num debate com políticos que queriam delimitar lugares destinados a tais práticas. Trevisan pontua que sujeitos marginalizados pela sociedade – como os integrantes da comunidade gay – inventam novos espaços de sobrevivência e vivência do prazer: “[...] não preciso que determinem um lugar onde eu possa caçar, simplesmente porque quero caçar em qualquer lugar da cidade”.
Se, por um lado, alguns contos apresentam essa dinâmica afetiva e sexual, por outro, há personagens rememorando o passado e seus grandes e avassaladores amores. Nessas narrativas, o leitor percebe o luto das personagens, por vezes marcado por tentativas vãs de superação. No conto “Um dia eu me vingo do mundo”, o narrador retorna à experiência do primeiro amor. A separação foi dolorosa e ocorreu por interferência de terceiros, mas, mesmo com o passar dos anos, existe algo que ficou e que se tornou motivo de saudade para o protagonista.
Eu trocaria tanta coisa por mais vinte minutos... Trocaria tudo o que vivi por um dia inteiro na sua companhia, por uma noite com o seu corpo sossegado junto do meu. Seria o dia mais importante da minha vida. Aí eu poderia morrer no seu abraço que eu morreria em paz. Não há justiça, mas seria a morte da pessoa mais feliz do mundo. (p. 48)
A mesma dinâmica de rememorar grandes amores aparece nos contos “Você comigo” e “Dos olhares nascem o paraíso”, nos quais algo em comum se destaca: a não concretude do amor. Como o título do livro salienta, o uso do verbo “sonhar” no pretérito imperfeito remete a algo situado no passado que não se realizou. Assim, as personagens são marcadas pela memória, o que confere às narrativas esse tom de relato e aproxima suas vivências das do leitor.
Além disso, existe todo um jogo de dinâmicas que se expõe no decorrer dos contos. A prostituição, as relações entre homens de idades díspares, a pegação e o sigilo são temas que perpassam as narrativas. Se Trevisan reivindica o direito ao prazer e à demonstração do afeto em todos os lugares, os contos de Kaio Phelipe seguem o mesmo caminho. Erotismo, amor e solidão se entrelaçam nas narrativas e colocam as personagens numa arena de sentimentos e sensações. Todas as personagens sentem muito e falam sobre sentir muito: “[...] “Quero tanto nosso primeiro beijo como eu quero o vigésimo terceiro e quero que no vigésimo quinto eu anseie tanto o vigésimo sexto como anseio o segundo” (p. 98).
Todos nós sonhávamos em ser Carmen Miranda segue caminhos frutíferos de uma tradição literária gay que não está voltada apenas à fruição e à denúncia, mas também quer trazer profundidade e camadas às suas personagens. Nada aqui recai em clichês ou estereótipos. O autor constrói narrativas rápidas e objetivas, com personagens vibrantes, melancólicas e, por vezes, sós, que rememoram experiências e reafirmam o precioso direito ao prazer e à liberdade pelos quais a comunidade LGBTQIAPN+ lutou para conquistar e que permanecem ameaçados. A obra lança um olhar atento para as subjetividades e relações sociais, um raio X preciso e, por vezes, incômodo, tamanha a explicitude com que os conflitos são expostos. Kaio Phelipe escreve um livro que ressoa.
Imagem em diálogo: O impossível - Maria Martins, 1945 (MALBA)