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PIGMENTANDO COM DENDÊ MULHERES BAIANAS

Sobre o livro Vapor de dendê não tem cor, 

Editora Patuá, 2026, de Lara Tironi

Por Douglas Sacramento  

Agosto. 2026 

I

No âmbito literário, determinadas personagens aparecem pouco e de forma muito pontual nas narrativas, ou, quando estão no centro do palco de alguma obra, recebem uma caracterização pautada em estereótipos. É o caso das empregadas domésticas. Mas, observando essa mesma personagem em obras contemporâneas, com a abertura editorial para outros perfis de autoria, a empregada doméstica surge com outras demandas e é humanizada, como uma figura dotada de camadas, conflitos e protagonismo.. 

Nesse espaço da protagonista, Lara Tironi aborda as empregadas domésticas no seu primeiro romance, Vapor de dendê não tem cor (Patuá, 2026). A autora, da capital baiana e formada em Direito pela UFBA, tem como principal inspiração o escritor João Ubaldo Ribeiro. A obra possui duas vozes narrativas, intercaladas ao longo dos capítulos. A primeira é uma personagem narradora – em que reverberam elementos de Ubaldo – que está contando a sua história e não possui nome até os últimos dez capítulos. Ela sai do interior da Bahia, na metade do século XX, após a morte da mãe, para trabalhar como empregada doméstica na casa dos patrões da irmã. Essa relação trabalhista se estende por mais de 30 anos; a narradora acompanha o casal com seu primeiro filho, a chegada das outras três filhas e, como a segunda filha do casal, estabelece uma ligação muito forte, a ponto de deixar de trabalhar naquela casa para acompanhar a jovem quando ela se casa. Assim, ela ajuda na criação dos filhos até que, no final da vida, volta para ajudar a irmã a cuidar do casal de patrões na terceira idade, até a morte deles. Após o fim da servidão, já idosa, passa a morar no bairro da Gameleira, em Salvador, com a irmã, numa casa comprada pelos herdeiros. 

Em paralelo, acompanhamos, num presente narrativo, o percurso entre faxinas e mais faxinas de Tieta, mulher que vive na Gameleira, uma comunidade periférica entre as muitas existentes na capital baiana. No início do romance, Tieta faz faxina para um homem separado que, naquele dia específico, a dispensa, pois voltará a viver com a ex-esposa. Voltando para casa e com a ajuda de sua melhor amiga Val, ela consegue um trabalho com o filho da patroa da amiga. Tieta faz a faxina na casa de Rodrigo, mas um flerte fica no ar, que se concretiza no Carnaval, no mesmo período em que transa com seu ficante e morador da comunidade, Joilson. 

 

No decorrer da narrativa, o leitor tenta pescar as pistas que ligam as duas histórias, algo que só acontece nos capítulos finais, quando Tieta fica grávida e vai contar com a ajuda de uma mulher experiente, que viveu a mesma situação com a irmã, que engravidou de um homem casado. Assim, há um cenário de situações que preenchem e atrelam dois tempos e dois modos distintos de enxergar e viver a profissão de empregada doméstica. De um lado, a narradora misteriosa, entregue ao máximo e esquecendo de si mesma, vivendo na casa dos patrões; de outro, Tieta, que faz faxinas como forma de sobrevivência e para juntar dinheiro para estudar. 

II 

Lara Tironi escreve sobre a Bahia. Este estado que é tão imagético e possui uma série de discursos sobre “ser baiano” e sobre” as experiências nessa terra de sol quente e bonitas praias”. Contudo, a autora faz um passeio pelos bairros periféricos do estado e, quando adentra a casa das elites, o foco é o quarto dos fundos. O olhar de Tironi não se limita ao espaço físico, mas alcança as dinâmicas entre empregado e patrão, presentes nos caminhos percorridos por suas protagonistas e em seu dia a dia como empregadas domésticas.

Ainda envolvida pela preguiça pós-almoço, respirou fundo para encarar o banheiro. Recolheu pelos e unhas e cabelos do ralo. Lavou, esfregou e enxaguou o boxe, desentupiu a privada, tirou o lixo. Deixou o banheiro limpíssimo e cheiroso, ao melhor aroma artificial de lavanda. Tirou da máquina as roupas coloridas, iniciou o ciclo das brancas, colocou as roupas de cama de molho na bacia, se pôs a dobrar. Foi só quando voltou ao quarto para colocar o lençol de elástico limpo que a viu: usada, murcha, gosmenta, espalhada pelo chão. Tomada de raiva, gastou quase um rolo inteiro de papel higiênico para se desfazer da dita cuja. Era a derradeira, e mais grave, falta de respeito. (p. 18)  

Por estarem sempre em movimento, a narradora sem nome saindo do interior para a capital baiana e Tieta subindo e descendo entre sua comunidade e os bairros da elite para ganhar dinheiro, o leitor é surpreendido com um olhar atento para esses lugares em trânsito, a partir do qual surge uma denúncia constante sobre a cidade de Salvador no contemporâneo, com suas violências, o tráfico e até a situação vexatória dos vendedores ambulantes no Carnaval. 

O Carnaval não é narrado com a costumeira alegria, com seus trios elétricos e cantores famosos, mas a partir das relações de trabalho e da disparidade de tratamento dada pelo Estado aos sujeitos da periferia. Tironi sabe para onde está apontando a sua escrita. O foco nos invisibilizados coloca essas mulheres e o seu ganha-pão no centro do palco. Aqui, os patrões têm pouco tempo de aparição, são figuras acessórias, e o enredo acontece sem eles tranquilamente. Estão ali demarcando o tempo todo o poder, o quanto abusam e usam de forma disruptiva essas mulheres, a ponto de fazê-las esquecer de si mesmas.

 

[...] Naquela época eu já começava a sentir os efeitos do tempo no meu corpo. Tudo que sinto hoje, as dores nas pernas, nas costas, nas mãos, nas vistas, tudo isso começou ali. Eu tinha ido menina morar na casa da patroa, tinha dezesseis anos. Agora, tantos anos depois, com a bebê que eu tinha ido ajudar a criar tendo sua própria bebê, não era para menos que já sentisse todas as juntas. Não é normal sentir as juntas. E eu, desde aquela época, sentia. Quando me abaixava, minhas costas doíam, minhas pernas pareciam rabiscadas de varizes, que desciam até o pé. Para onde o tempo tinha ido? Foram tantos os anos que passei facilitando a vida dos outros que tinha esquecido da minha. (p. 154-155)

Outro ponto importante desse olhar para dentro da casa – para o quarto dos fundos –, para o interior das relações, está no modo como o discurso sobre ser empregada doméstica muda. Para a narradora sem nome, até a parte final do romance, quando as histórias se encontram, o trabalho é o lugar da servidão total, reproduzido pela irmã e passado para ela. No seu oposto, há a vivência de Tieta, seu lugar como mulher preta empoderada e que tem letramento racial, trabalhando para conseguir outro emprego e cansada dos perrengues que vive em casas de pessoas ricas. 

Portanto, o olhar para o quarto dos fundos ganha outras nuances quando o foco são as subjetividades e, no desenrolar dos enredos centrados nessas mulheres, aparecem a narradora mais velha, que ajuda a irmã a abortar, sua conversão à igreja evangélica – tão popular em bairros periféricos de Salvador –, as dores e o corpo cedendo a tanto trabalho em prol do outro. Em paralelo, Tieta surge com suas demandas comunitárias, que afetam seu ir e vir dentro e fora do bairro, a violência que mata jovens diariamente nesses locais e a rede de apoio de mulheres negras nessas comunidades, em que as dificuldades são enfrentadas com a ajuda umas das outras. 

 

[...] Foi ali que viu, bem de longe, um menino alto e magricela, junto com mais uns três ou quatro, todos com menos de cinquenta quilos, apontando calibre .38 para cima e atirando ritmado. Tinha os olhos injetados, mesmo de longe dava para ver. Um dos comparsas levava um alto-falante, que começou a usar no momento em que Tieta se acocorou na janela, deixando de fora somente os olhos. Gameleira, aqui é o Bonde! Toque de recolher das oito às cinco! Quem não obedecer vai rodar!, desceu as escadarias falando. (p. 143)

As disparidades de tempo e vivência estão, também, alinhavadas à organização dos capítulos. Em alguns momentos, os capítulos de Tieta são mais curtos e mais estagnados, mas existe um preparo para o ato final, que difere da narrativa de uma senhora rememorando sua vida, com muito mais vivência. Contudo, o encontro entre as personagens está costurado no trajeto que a narradora faz, o que mostra uma organização e compreensão da estrutura do romance e dos caminhos das duas empregadas domésticas.

Assim, Vapor de dendê não tem cor apresenta duas mulheres-dendezeiros. Mesmo com a disparidade de idade e de anos que separam as duas, o leitor se atenta para como determinadas situações, demandas e conflitos ainda estão presentes e são retroalimentadas – racismo, sexismo e desigualdade de classe estão o tempo todo gritando nas páginas da escrita cor de dendê de Lara Tironi. Em seu romance de estreia, já se percebe uma dicção própria, com suas homenagens e influências muito bem estabelecidas, com seus conterrâneos João Ubaldo Ribeiro e Jorge Amado, mas que, ao mesmo tempo, atenta para questões importantes envolvendo mulheres invisibilizadas pela sociedade.  

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