



REVISITANDO ABALOS: SOBRE SISMÓGRAFO
Sobre o livro Sismógrafo, Leonardo Piana
Por Douglas Sacramento
Agosto. 2026
2.0 NA ESCALA RICHTER
O movimento das placas tectônicas, que formam a crosta terrestre, ao se movimentarem e se chocarem com seus movimentos divergentes, convergentes e transformantes, causa terremotos. Dependendo de sua intensidade, esses abalos derrubam prédios, deslocam pessoas, provocam ondas gigantes e deixam rastros produzidos pelos sismos. É uma premissa básica que aprendemos na escola desde crianças, mas esse conceito reverberou em mim quando terminei de ler o primeiro romance de Leonardo Piana, Sismógrafo (Autêntica Contemporânea, 2026; Edições Macondo, 2022), relançado neste ano (2026).
Ao terminar a leitura, fiquei pensando – e são essas perguntas que norteiam este texto – no seguinte: Como representar abalos sísmicos na literatura? Num país que praticamente não possui terremotos, como uma personagem situada no interior de Minas Gerais treme? Ou melhor, como medir e mapear os abalos sísmicos sentidos por Eduardo, protagonista do romance?
Precisamos revisitar Sismógrafo.
5.4 NA ESCALA RICHTER
Leonardo Piana é mineiro e, com seu livro de estreia, venceu o Prêmio Cidade de Belo Horizonte, além de ter sido finalista do Prêmio Jabuti e do Prêmio São Paulo de Literatura, ambos em 2023. Em 2025, venceu o Prêmio Sesc de Literatura, na categoria Poesia, com Escalar cansa (Senac, 2025). Meses atrás, lançou seu segundo romance, Tarde no planeta (Autêntica Contemporânea, 2026).
Sismógrafo gira em torno de Eduardo, o Edu. No presente narrativo, ele retorna para sua cidade natal depois de passar anos morando em São Paulo. O narrador volta, portanto, para Andradas, cidade onde o autor nasceu. Nesse lugar, passa um período ao lado da mãe enquanto tenta elaborar um luto.
No decorrer do livro, com intercalações entre presente e passado, descobrimos que Edu viveu um grande amor com um colega de classe, Tomás. Esse amor era mantido em segredo, e a descoberta da sua sexualidade era partilhada apenas com sua melhor amiga, Clara, descendente de asiáticos e também preterida pelos colegas. Assim, os dois sofriam o afastamento e diferentes reproduções de violência por fugirem de uma norma, de um padrão.
Contudo, a história ganha uma guinada quando Tomás vai para São Paulo estudar geografia na faculdade. Edu continua em Andradas, no último ano do Ensino Médio. Numa das visitas de Tomás à cidade, após uma pegação no banheiro do clube da cidade, um colega invade o banheiro e fotografa o ato, porém, a foto só mostra Eduardo. A partir desse momento, ele passa a sofrer ainda mais retaliações, o que faz a foto e fofoca chegarem às mãos de sua mãe. Mote para a saída de Andradas em direção à cidade grande, onde busca estudar e ganhar a vida.
Em paralelo, acompanhamos o périplo de retorno de Edu, carregando fotos de seu amado e questionamentos sobre o período em que viveu ao lado de Tomás, o afastamento de sua melhor amiga e de sua família. Um retorno que o leva a confrontar a mãe, a mãe de Tomás – que também está vivendo esse luto –, a rememorar o pai, desaparecido após a separação, e a revisitar o amor avassalador e tremulante.
9.2 NA ESCALA RICHTER
Retorno às perguntas do início deste texto. Elas continuam reverberando em mim. Para pensar sobre elas, recorro a um livro de Didi-Huberman, A imagem sobrevivente (Contraponto, 2013), do qual ecoa a mesma pergunta que abre o romance de Leonardo Piana: “Quantas imagens são necessárias para contar uma história?”.
Nesse livro, o filósofo francês desenvolve uma reflexão em torno das imagens. Num determinado momento, ao falar do advento da criação do sismógrafo, aparelho que mapeia movimentos e tremores perceptíveis e imperceptíveis das placas tectônicas, o autor transforma esse instrumento em uma metáfora para pensar a produção de imagens. Para ele, a função do sismógrafo seria “restabelecer o traço de temporalidade dos fenômenos menos fáceis de observar”.
Para Didi-Huberman existe um historiador-sismógrafo, alguém que cria imagens e analisa os fatos históricos com base nos tremores.
Para mim, existe um autor-sismógrafo, alguém que cria imagens literárias através dos tremores.
Leonardo Piana.
Utilizo as características atribuídas por Huberman para esse sujeito, cujo foco estaria nos “movimentos invisíveis”, aqueles que, de algum modo, deixam marcas e “sobrevivem”. O autor-sismógrafo é alguém atento ao seu tempo e à maneira como seus abalos afetam os sujeitos. Portanto, os tremores contidos no presente diferem aqueles de outrora, tanto em suas causas quanto em seus efeitos.
PÓS-ABALOS: O QUE RESTA
O romance começa após o abalo. Estamos diante de um Eduardo que tenta se reerguer das ruínas deixadas por um grande terremoto, uma perda que o desestrutura completamente. Nisso, a imagem de Tomás e o retorno ao passado, em rememoração e criticidade, são importantes para que o protagonista possa começar a se reerguer. Sua vida gira em torno de um amor entre homens e, nesse movimento, deixa de lado outras relações, como aquelas com sua mãe e com Clara, mulheres de muitas camadas e que não recebem o devido cuidado e zelo do protagonista.
No passado, o leitor acompanha um jovem Eduardo em suas descobertas sexuais, no peso da religião à qual sua família é adepta e em como amor, sexo e violência têm suas fronteiras borradas na meninice do protagonista. Afinal, ele não conseguia entender os machucados no corpo de sua mãe, causados pelo pai, nem deixava de achar que seria castigado por Deus por ser quem era e sentir o que sentia. O erotismo está presente o tempo todo nesse momento inicial do romance, nas descrições dos corpos, no suor e no contato entre os colegas jogando bola, tudo muito sensível e imagético, mimetizado pelo protagonista-fotógrafo.
[...] De vez em quando vejo pela janela o filho do vizinho trepar na mangueira se escorando pelos galhos, mãos e pés abraçando firme o tronco, o corpo colado à casca da árvore. Ele é bem mais velho do que eu, padre, mais forte, encorpado. Não, não é isso, o filho do vizinho é até bem magro, forte mas magro, e sobe sem medo até o topo, sem camisa, suando em bicas, o short largo esgarçado, aquele deve ser até mais barato, sempre uma sujeira, o short, ele sobe só pra pegar as melhores mangas lá no alto. (p. 26)
Aqui, começamos a enxergar as imagens dos sismos. O retorno a esse passado tem uma função: não apenas dar entendimento ao presente de Eduardo, mas compreender como os terremotos perpassam esse corpo e como, tal qual um terremoto, esses abalos ocorrem de repente e, às vezes, aumentam de intensidade. O mesmo acontece com a construção do romance entre Eduardo e Tomás. Nada é rápido ou afoito, pelo contrário, do início da relação ao primeiro “eu te amo” se passam meses e mais meses de descoberta do corpo um do outro, compreendendo que os terremotos afetam lugares distintos. O tremor que Eduardo sentia reverberava em Tomás.
[...] Tomás correu as mãos pela minha nuca e depois pelas costas, até a bermuda, e começou a aprender tudo, foi quando as minhas mãos também encontraram a bermuda dele, abriram o velcro e sentiram a temperatura e a umidade, o clima que existia debaixo da cueca Calvin Klein de Tomás enquanto ele estudava o clima debaixo da minha, sem marca, e segurava, conseguia, me mantinha consigo, os braços balançando, roçando um no outro enquanto nos beijávamos desesperadamente frente à frente sobre a colcha listrada da minha cama, linhas retas se confundindo com os braços estendidos dele, fibras musculares e a barriga exposta quando tirou a camiseta, deitando-se. (p. 83)
Se, por um lado, é a perda de Tomás que desencadeia esse retorno à cidade natal e ao passado, por outro, Eduardo compreende que é após um grande abalo que catalisa a saída dessa cidade. Existe, portanto, toda uma relação com esse espaço, no qual a cidade pequena é pequena demais para caber um afeto grande entre Tomás e Edu. Ao mesmo tempo, ela também é diminuta diante da perda que o protagonista sente no decorrer do romance, perceptível na quantidade de caminhadas que realiza, que sempre parecem levá-lo aos mesmos lugares e às mesmas ruas: “Não só as cidades criavam abismos, eu soube, também nossos corpos podiam fazer isso. E faziam.” (p. 195)
As complexidades que Eduardo sente são comparadas às catástrofes que ocorrem fora do Brasil. Outros terremotos e suas destruições são mencionados – abalos no Japão e na América Latina – e, para além deles, surge também uma referência ao 11 de setembro, nos EUA. Essas tragédias aparecem como parâmetros para as sensações do protagonista: a catástrofe e a iminência de destruição são sentidas e pressentidas por ele, num jogo entre as reverberações do micro e do macro, e na iminência de um fim do mundo que apenas Eduardo conhece.
Como se perde um corpo? Por um segundo, sim, senti medo da perda, do mistério da perda, dessa ciência: poderia perder Tomás, o corpo dele, naquele último dia como em qualquer outro. As catástrofes de sábado estampadas no jornal deixado sobre a bancada da cozinha: terremotos no Chile, chuvas torrenciais, novas buscas, tempestades e voos caídos, centenas de mortes em protestos no Egito, incêndios, soterramentos, acidentes. Todos perderam. Era certo que não haveria nada sobre sementes de frutas ou finais de semana em casa que se impunham, isto também: catástrofe, nada sobre o tremor que poria aquela casa abaixo a ser impresso em outra folha que não esta, nenhum sismógrafo. (p. 199)
Sendo assim, revisitar os abalos é o percurso que a personagem faz para ressignificar os fatos de sua vida e produzir novos sentidos para eles. Para isso, Piana cria imagens que dão conta dos sismos que atravessam Eduardo ao longo dos anos. É um olhar sensível sobre a perda e sobre a relação homoafetiva, mostrando que, desde o primeiro romance, o autor se mostra atento aos tremores de seu tempo, à violência que esses corpos vivem e como são cobrados – claro, partindo de um lugar próprio de enunciação, embora eu queira, no futuro, ver outros corpos e outras orientações em destaque.
Sua caneta arguta e poética encanta, mapeia e desenha, como os riscos ondulantes de um sismógrafo. Há beleza nas escalas; há beleza no chacoalhar das placas, dos encontros, dos atos sexuais e do amor vivido entre Eduardo e Tomás.
Leonardo Piana é um autor-sismógrafo: tremeluz, cria um sismograma próprio do que é sentido e do que não é sentido.
Imagem em diálogo: O Século, Cinthia Marcelle e Tiago Mata Machado, 2011