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SEGUE O SECO: GUELA SECA

Sobre o livro Goela Seca, de Jô Freitas

Por Douglas Sacramento  

Julho. 2026 

SOL A PINO

Lembro de uma certa vez em que estava dando aula de literatura para uma turma de Biblioteconomia, abordando a geração de 1930 do Modernismo brasileiro. Eu falava sobre o foco que os escritores desse período deram ao interior do Brasil, fora dos eixos Sul-Sudeste, tão em voga no início do século XX e associados ao avanço e ao fervo cultural. Num dado momento da discussão, alguns alunos que vieram do interior da Bahia, mais precisamente do Semiárido, comentaram a discrepância entre a vivência daqueles locais e a representação que encontravam na literatura. Ao final, apontaram que, em alguns momentos, há uma animalização das personagens, enquanto a subjetividade e a humanidade ficam de lado, em segundo plano.

Achei a observação pertinente, sobretudo vindo de um lugar de fala muito específico. Afinal, quem lê também quer se ver no que está lendo – esse é um dos caminhos que os pactos da representação propõem ao leitor. Pontuei que, no contemporâneo, existe um movimento outro, distinto, no qual as pessoas enxergam e levam ao labor literário suas demandas e as mais variadas facetas da experiência humana. Contudo, sem esquecer que o sertão é amplo e múltiplo, e que sua secura aparece não só na paisagem, mas na costura do texto. Das areias secas dessa lembrança e da leitura do livro que acabei de terminar surgiram algumas perguntas:

Como transpor para a linguagem a seca? Como dar conta de representar, por meio da literatura, a secura do sertão nordestino?

Esses questionamentos que ficam após a leitura de Goela Seca (Editora da Autora, 2025), livro de contos da escritora nordestina Jô Freitas, que mora em São Paulo desde os 5 anos de idade. Finalista do Prêmio Jabuti, a obra gira em torno de narrativas que estão conectadas, ora pelas personagens, ora pelo espaço em que se desenrolam. Organizado numa estrutura que remete aos versos, o livro incorpora o sertão nordestino com sua oralidade e sua cultura. Na maioria dos contos, acompanhamos diferentes Joanas, da infância até seu crescimento, em suas relações familiares e com pessoas ao redor. 

Embora possam ser lidas de forma independente, as narrativas têm algo em comum: levam o leitor para esse lugar em que o sol castiga, enquanto diferentes formas de violência acontecem com as personagens – mulheres negras ou afro-indígenas nordestinas – no decorrer das páginas. Dividida em três partes, a obra organiza seus títulos em torno de situações vividas pelas personagens e, consequentemente, inserindo o leitor nesse espaço árido, marcado pelas narrativas orais.

CHÃO SECO ESPERANDO A CHUVA

Fiquei matutando sobre a relação entre a secura do sertão, o sol quente e a falta de chuva, e como tudo isso está plasmado no literário. Esse me parece um dos mecanismos mais relevantes da escrita de Jô Freitas e um ponto necessário para discutir o livro como um todo. Numa primeira instância, essa relação demarca as problemáticas e demandas que afetam as populações que vivem nesses locais. Como as narrativas curtas são conectadas e, em sua maioria, conduzidas por vozes infantis, é justamente nesse olhar próprio da infância – atento, curioso e ainda atravessado pelo lúdico – que a realidade se revela.

Joana, Perla e as crianças que aparecem para serem cuidadas pela Joana-curandeira surgem junto com a fome, com a comida pouca para tantas pessoas numa família que cresce, com crianças doentes, com o trabalho cansativo sob o sol a pino e com as disputas entre homens pela terra. São elementos presentes na vida do interior do Brasil que, muitas vezes, não recebem o devido trato das grandes mídias. É uma infância marcada pela sede e pela pele esturricada de sol.

[...] a goela pedia água e mamãe não dava

Papai não pedia água, só bebia uma vez para engolir a comida seca de farinha de macaxeira

Já não se importava com a aridez do céu da boca

Daqui a pouco é hora de comer

Dávamos o lugar da goiabeira para papai e mamãe que não tinha mais força, para além do levantar a colher. (p. 38) 

Ao escolher o Nordeste como cenário de suas narrativas, Jô Freitas faz da musicalidade e da oralidade elementos estruturantes de sua escrita. Seus contos incorporam poemas rimados e exploram variações linguísticas que reafirmam a experiência sertaneja, marcada por condições de vida muitas vezes extremas, periclitantes, diante das quais nem sempre há espaço para o lúdico. Em alguns momentos, esses versos, que constituem a tessitura da prosa da autora, remetem ao repente e à lírica do cordel, manifestações poéticas ligadas às culturas e narrativas populares do sertão. Isso se evidencia , por exemplo, no último texto da obra, que se apresenta como poema, “Depois do fim...”: 

[...] Molhar a goela, usar quantas vezes for

Para você não enjoar da palavra goela

Invente outra e me tire essa dor

De rimar esse poema mal-engraçado

despoético, oco, vão e fútil 

Você vai ler e vai estranhar

Não tem beleza nenhuma (p. 127)

Portanto, o leitor não está diante de um livro de contos convencional. Ao amalgamar a pluralidade de vidas, culturas e formas de expressão presentes no sertão, a obra ganha novos contornos. Se faz chuva ao apresentar contos interligados, atravessados por uma lírica nordestina e pela inserção de imagens que trazem à tona a relação dessas personagens com o espaço que habitam. Jô Freitas extrapola os limites tradicionais do gênero conto, pois, assim como o sertão, sua obra é múltipla.

 

Caminhando junto desses temas, sob o sol quente do meio-dia, as personagens – na sua maioria femininas – peneiram as questões centrais do livro. A condição da mulher nesse espaço marcado pela reprodução de discursos machistas aparece tanto nas relações familiares quanto nos vínculos entre avós, mães e filhas. Quando os homens entram em cena, geralmente estão num lugar de problematização das estruturas que alicerçam a sociedade. O machismo e o modelo patriarcal estão expostos ali o tempo todo: mulheres cuidando da casa, homens saudosos da virilidade da juventude e viúvas aliviadas de não mais viver ao lado de companheiros não confiáveis e violentos.

 

Sou Alzira e tantas outras que têm que “amar” mesmo sem querer, só porque disseram que temos que viver com o marido, ainda que seja o mesmo que morrer

Alzira, que vive melhor sem o agressor, aprendeu a engolir a dor e agora, vomita verdades (p. 112)

Jô Freitas escreve um livro em que a falta de água e seus sintomas se fazem presentes por toda parte: a garganta seca, a pele seca, o chão seco. Entretanto, sua escrita é água que inunda e faz correr rios que estavam adormecidos. Por ser uma escrita que jorra, ela acaba mapeando lugares que poderiam parecer uniformes e devolve ao sertão suas múltiplas nuances. Com um olhar atento às relações femininas, às demandas de constituir família em meio à seca e às experimentações estéticas que atravessam a obra, a autora constrói uma narrativa que faz o leitor sentir o calor do sertão sem reduzir o território à aridez. Goela Seca é uma leitura que abarca públicos distintos e oferece ao leitor discussões necessárias da vivência sertaneja na literatura contemporânea.

Imagem em diálogo: Os peixes criaram beijos, Aguamento barranqueiro - Davi de Jesus do Nascimento (2020) 

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