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SEGURANDO NAS MÃOS DO ACASO 

Sobre o livro Catálogo de Acasos, 

7Letras, 2025, de Franck Santos 

Por Douglas Sacramento  

Setembro. 2026 

I

Hebe Uhart, professora de Escrita Criativa, teve suas aulas transcritas e compiladas por Liliana Villanueva, escritora premiada nascida na Argentina, no livro As aulas de Hebe Uhart (WMF Martins Fontes, 2024). Numa das aulas contidas neste livro, o tópico de discussão é o conto e como ele surge. Para a teórica, existem multimeios de inspiração para um conto, mas um deles me chamou a atenção: a relação do que se escreve com a vida, mais precisamente com aquilo que o autor observa do outro e sobre si mesmo, podendo ampliar seu conhecimento sobre determinados pontos de si. 

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Para Uhart, não se separa literatura da vida – vejo ecos de Deleuze nessa afirmação –, portanto, o escritor deve estar sempre atento às conversas, às pessoas e ao que está consumindo de literário e midiático. Afinal, todas essas instâncias e outras servem de insumo para a construção de um conto, ideia que amplio para a literatura de modo geral. 

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Quando comecei a ler o livro de contos de Franck Santos, Catálogo de Acasos (7Letras, 2025), percebi que os textos estão atrelados a conversas com outras pessoas, suas vidas e seus gostos – músicas, referências literárias ou cinematográficas –, o que serve de costura para o narrador dessas histórias. Franck Santos é um escritor maranhense e professor de Geografia, autor de alguns livros, dentre eles Poemas para dias de chuva (Patuá, 2015), Os blues não dançamos (Moinhos, 2020) e Nossos próprios vazios (Primata, 2021). O livro que serve de base para este texto foi lançado em 2025 e é dividido em três partes: “Acasos”, “Catálogos” e “Catálogos de Acasos”. As três possuem contos escritos em primeira pessoa, nos quais se borram as fronteiras entre o público e o privado, próprias da autoficção contemporânea. 

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II 

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Uhart atrela a escrita do conto a uma vida que está acontecendo ao redor do autor, portanto, ele precisa estar sempre atento. Esse olhar apurado sobre o que o cerca é a base dos contos de Franck Santos, que compõem um livro de mapeamentos de acasos, ou melhor, um catálogo, cujo conceito é apresentado nas primeiras páginas por meio da definição dicionarizada das palavras “catálogo” e “acaso”, que norteiam a proposta da obra. 

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A princípio, o que chama a atenção do leitor é a estrutura e as modificações feitas pelo autor no gênero textual proposto, já que os contos não possuem um molde fixo. Por se tratar de acasos, eles por vezes são curtos ou se debruçam sobre essa figura autor-personagem, em diluição, presente em todo o livro. Ou seja, por estar catalogando situações que não estavam previstas ou planejadas, o livro possui a rapidez com que o acaso afeta a vida da personagem: “Na semana em que Dona Nilza morreu, comecei a entender dos mistérios do Universo” (p. 53).

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Para além da estrutura do conto em rasura do modo de pensar tradicional sobre o gênero, outro ponto importante é o diálogo constante com outras obras, filmes e músicas, que costuram uma colcha de repertório importante para o leitor compreender o que o autor está propondo como base conceitual do livro. Há, assim, um diálogo com as vivências de um sujeito gay em tempos de aplicativo de pegação, além de um flerte bem escancarado com a autoficção francesa, na qual são invocados Annie Ernaux e Édouard Louis, que utilizam suas próprias vivências como ponto de partida para a construção de uma ficção em primeira pessoa. 

 

O escritor Édouard Louis, nos seus livros autobiográficos, conta como fugiu de sua cidade natal, da sua família e das pessoas que o conheciam para viver sua orientação sexual. A liberdade do corpo. Ele e eu, mesmo sendo de gerações e continentes diferentes, vivenciamos as mesmas questões. 

O auge da identificação é quando ele menciona que seu irmão mais novo o chama de gay na frente de sua mãe. Minha irmã, também mais nova que eu, fez isso. 

Não sei se Édouard se sentiu como eu quando isso aconteceu: ser um cervo e não saber correr. (p. 71)

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Essa experiência em primeira pessoa atravessa o livro. O autor mapeia seus gostos e sua coletividade, por isso, nos contos, há vivências próprias de um corpo gay, que mora no Nordeste, mas está atento ao mundo e que, por vezes, utiliza um tom cômico e, outras vezes, deixa a atmosfera das narrativas curtas pungente, para abordar temas necessários, como o luto, a velhice, os relacionamentos no contemporâneo e uma rememoração de tempos outros, como a infância, sua relação com a literatura e o pai, por exemplo.

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Chegar aos sessenta anos numa ilha do litoral nordestino brasileiro, sabendo a altura das subidas e ignorando a queda. 

Procurar por ele em aplicativos de relacionamentos. Cabelos. Barbas. Mãos. Bocas. Pênis. 

Do lado de lá do Atlântico. (p. 79)

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Assim, o leitor acompanha os acasos vivenciados por esse narrador em primeira pessoa na primeira parte do livro. Em seguida, somos enredados pelos afetos e pelas afetividades literárias, cinematográficas e musicais catalogadas pelo narrador, atento às suas próprias vivências e às das pessoas ao redor. Ao final, o leitor se depara com dois textos breves sobre a escrita como um diário, a ficção como organizadora de um caos cotidiano e a possibilidade de essa figura autoral/personagem se plasmar no texto. Ao terminar o livro, fica o questionamento sobre o quanto do que está no livro aconteceu de fato e qual é a sua relação com o real. 

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Franck Santos, em Catálogo de Acasos, mapeia a si mesmo e se coloca como personagem em contato com outras pessoas, brincando com o conto e suas nuances não engessadas que o contemporâneo traz consigo. É uma leitura rápida, cheia de indicações que convidam o leitor, no futuro, a procurar as referências apresentadas, retornar à obra e dialogar com o que está escrito numa nova leitura. O acaso, na sua ambivalência, é múltiplo e cheio de nuances sob a caneta atenta de Franck Santos.

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