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SENTINDO A TERRA: POEMAS COM ANCESTRALIDADE 

Sobre o livro As mão da terra têm olhos, 

Editora Malê, 2026, de Cassiano Figueiredo

Por Douglas Sacramento  

Setembro. 2026 

I

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Começo a escrever este texto no dia 26 de julho de 2026, dia das avós, dia de Nossa Senhora Sant’ana e, em muitas casas de terreiro, dia em que se faz oferenda para Nanã. Orixá mais velha, Nanã molda os seres humanos com o barro, matéria à qual retornamos ao final da vida. Não poderia deixar passar essa data, pois foi justamente nesse dia que terminei de ler o mais recente livro de Cassiano Figueiredo, As mãos da terra têm olhos (Malê, 2026). 

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Sobre o autor carioca, já escrevi uma crítica sobre a plaquete de poemas lançada anteriormente, Escravidão do silêncio (Urutau, 2025), neste mesmo site. Além de escritor, é filho de Orixá e professor de língua inglesa. Sua vivência no terreiro e com a ancestralidade é o ponto de partida para sua produção poética. Se, no livro anterior, o autor retoma os ancestrais escravizados no período colonial, que também fundam a nação brasileira, associando essas vozes aos Pretos e Pretas Velhas (Vovô e Vovó), no mais recente, mergulha no rastro da orixalidade presente nos terreiros. São apresentados ao leitor poemas que dialogam com Orixás; alguns são invocados, como os da casa Pacata – Omolu, Ossain, Oxumarê e Nanã – e há, também, poemas sobre Iansã, que dialogam com o transitar entre mundos e com a ancestralidade. Compondo toda uma relação de adoração e respeito às divindades - atrelada a uma práxis e vivência como sujeito em contato com a energia dos Orixás -, o livro é composto por 35 poemas, divididos em quatro partes.

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II

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Como o Dia das Avós foi um domingo, varei a madrugada de segunda escrevendo. Nesse dia, ligado a um dos principais Orixás presentes no livro de Cassiano Figueiredo, Omolu, dono da casa de que sou filho. Atotô! Omolu ensina a possibilidade da cura e do aprender a andar descalço, sentindo o chão, do fazer silêncio para escutar o ensinamento. Portanto, li Figueiredo e aprendi o que esse mais velho tem para dizer por meio de sua poética. 

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Ao terminar o livro do autor carioca, muitas das coisas que pesquiso – por ter defendido uma tese sobre literatura e religiões de matrizes africanas – ficaram ecoando. Como a escrita poética está amalgamada a uma gnose africana? Como o poema dá conta de uma experiência que perpassa o corpo? Quais as formulações e trabalhos estéticos que dão conta de uma cosmovisão tão ampla e de vivências múltiplas numa práxis constante, afinal, candomblé se aprende na prática? 

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Questões que ficaram em mim quando terminei de ler As mãos da terra têm olhos e que me fizeram correr para pegar minhas anotações do livro do pesquisador baiano Henrique Freitas, Literatura-terreiro (Segundo Selo, 2025), no qual o intelectual apresenta e conceitua essa noção. Para o autor, essa forma multimodal de produção literária, feita por escritores e escritoras negros e negras, é calcada em “princípios éticos, cosmogônicos e estéticos” acoplados às religiões de matriz africana, ou seja, oriundas do continente africano, difundindo e mantendo vivos os ensinamentos, principalmente “os dos povos bantu e yorùbá”. 

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Logo, esses textos possuem especificidades próprias que dialogam com as múltiplas formas de aprendizado e transmissão de conhecimento que ocorrem nessas comunidades-terreiro. Cassiano Figueiredo exemplifica isso por meio da poesia, não apenas nas aparições e associações diretas aos Orixás presentes no livro, mas também no posfácio escrito por sua Mãe de Santo, Mãe Márcia Marçal, que dialoga com os saberes transpassados pelos versos e estrofes e os conecta à voz de quem transmite esses conhecimentos: a líder de seu terreiro. Uma intelectual. 

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Assim, os poemas emergem de uma voz poética que ecoa todos os sujeitos e sujeitas que são de candomblé, e cujos versos pontuam a relação de adoração e agradecimento aos Orixás e aos ensinamentos e práticas que essas divindades transmitem dentro da comunidade-terreiro. Então, o autor começa saudando Exú, antes de falar do barro, da vida e da morte e da cura, e a voz lírica exclama, nesse poema que abre o livro: “é preciso/ honrar os passos/ dar de comer/ ao caminho/ laroyê!” (p. 22). 

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A partir do poema de Exú, os caminhos se abrem para abordar os Orixás, começando com Nanã, o barro, a criação e o retorno da matéria quando morre. A relação de Nanã com a figura das avós está presente também no decorrer do livro: “ayaba moldadora/ nos conduz/ ponte de encontro acolhida de vó” (p. 23). 

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Seguindo pelos Orixás que estão assentados junto a Omolu, o dono de terra é invocado e a cura aparece relacionada à dança, ao xaxará e à pipoca – o duburu –, construindo um poema que perpassa o corpo necessitado de cura e a retirada das mazelas: “o gesto corporal é uma forma de curar” (p. 67). Na mesma esteira, quando o autor aborda Oxumarê e Ewa, a cobra é o símbolo transmutado na organização dos versos, e há a construção de imagens por meio de poemas, com ecos da poesia concreta e, mais precisamente, de Solano Trindade. Assim, há poemas em forma de cobra ou de chuva. 

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Ossain também surge, afinal, sem folha não tem orixá, provérbio que ecoa nos poemas para o Orixá das folhas, e também apresenta ao leitor o lado misterioso da divindade, dono da cabaça e dos mistérios sobre os usos das plantas: “sem faca/ se quina/ se macera/ se imola/ as folhas de ossain” (p. 40), versos que remetem ao ato de moer e desfolhar, uma constante no terreiro em dia de obrigações religiosas e no próprio cotidiano da religião. 

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Se o autor invoca Orixás que, de algum modo, estão relacionados a transformações, doença e cura, vida e morte, também aborda as mudanças da vida associadas à mudança da pele das cobras. Iansã surge como a Orixá que passeia pelos mundos, que leva o morto deste plano para o outro, atravessando os nove orun, e que está na base do culto aos ancestrais. Para além disso, Iansã é borboleta e búfalo, atestando seu poder de transformação pelos ventos e raios, e com uma ligação constante com Omolu – alguns itans recontam essas narrativas. 

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borboleta

branca

os chifres 

bata um no outro

búfalo

leite abundante

seus filhos

são do mundo (p. 47)

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Por ser um livro de poemas, calcado numa vivência de candomblé, o que considero um exemplo coerente de literatura-terreiro, o livro é transpassado de cantigas aos Orixás. Itans e Oríkìs também aparecem nos próprios poemas e na separação das partes que compõem o livro. Em alguns momentos, há repetição de versos e estrofes, remetendo à estrutura repetitiva das cantigas e do canto-reposta que ocorrem nas ritualísticas do Candomblé. No poema para Ossain, há repetição do oríkì: “kò sí ewé” (p. 37).

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Cassiano Figueiredo escreve um livro de poemas perpassado de axé. Ao longo das páginas, encontramos sonoridades, cheiros e uma voz poética que reafirma o tempo todo o poder de mudança que os Orixás produzem na vida das pessoas que vivem o candomblé. Poemas que evidenciam o poder ancestral da caneta de Figueiredo e mostram como não há separação entre a produção literária e uma forma de gnose que ultrapassa o pensamento cartesiano moderno. O livro é uma oferenda, uma comida à cabeça: “colha a folha/ deste poema/ ofereça/ ao seu ori/ ara/ ònà” (p. 73).

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As mãos da terra têm olhos é para ler, reler, cantar e sentir com o corpo. 

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Imagem em diálogo: Omolu, Brazil, Phyllis Galembo, 1987. 

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