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Imagem: Mitchel Onwuchuruba

Somos Fogueira: Um manifesto

Por Georgenes Isaac 
#1 Sociedade da Combustão

Junho . 2025

O fogo, em suas múltiplas e infinitas manifestações, permeia estas palavras que incendeiam ao serem escritas, lidas e lembradas. Escrevo durante o mês de junho do ano de 2025, ano regido por Xangô, Orixá da justiça, entidade do fogo. Escrevo de uma terra sagrada, profana, contraditória, mágica e misteriosa, nomeada em decorrência de um processo colonial brutal, São Salvador. 

Falo de território Tapuia, terra que outrora foi invadida e explorada e que ainda é, reconhecida como capital afro-brasileira. É neste contexto e neste lugar, diante desta tela de computador, que me proponho a discorrer sobre o poder, o significado e a dimensão do fogo em minha e nossas vidas, neste lugar e neste ano.

Para isso, acendo ao meu lado uma vela e peço inspiração. Desde a infância, ainda criança-preta-bicha fui instruído sobre a força e o significado desse gesto. Acender uma vela é invocar uma luz, é potencializar um canal com uma energia ancestral, onipresente, é como trazer à tona uma centelha para o seu interior. É iluminar caminhos através de uma comunicação íntima e sensível, conectando-se à fonte de energia que a chama representa. 

Ponho-me a observar a vela antes de começar a escrita, vejo a dança da chama que constantemente se transforma. Diante da vela, sinto o calor do fogo. Por um instante lembro-me que as velas permeiam os cotidianos das religiões de matriz afro-brasileiras, elas estão presentes não apenas nos altares, mas também nos assentamentos, terreiros e nos espaços sagrados. Elas iluminam nossos caminhos e revelam pensamentos que nos habitam. Percebo, então, que acendi essa vela para que ela me iluminasse nesta escrita, para que eu pudesse lançar luz sobre algumas questões obscurecidas pelas sombras da colonização.

Nos últimos meses uma série de incêndios e princípios de incêndio atingiram espaços historicamente legitimados, tanto no campo das artes, quanto no campo das administrações públicas. Para uma pessoa desencantada do mundo, esses fatos poderiam ser lidos apenas a partir da perspectiva material da segurança e prevenção. Porém, para mim, artista dissidente e uma bicha macumbeira sem terreiro, acredito que estes eventos sejam manifestações de Xangô. É o Deus da justiça se fazendo presente. 

Diante deste cenário, compreendo que o fogo é a rebelião contra a ordem social estabelecida, ele é uma espécie de renovação necessária para a emergência de novas formas de existências, identidades e liberdades. Suas chamas devoram o que foi construído a base da exploração e da injustiça social, deixando para trás apenas cinzas que poderão servir como matéria-prima para novos começos.

Ao incendiar as estruturas coloniais, o fogo questiona o poder e sua arquitetura, reivindica uma justiça histórica e põe em jogo as autoridades que essas estruturas representam. Nesse sentido, o fogo é um agente de ruptura, capaz de revelar as contradições, injustiças e opressões enraizadas no projeto colonial operante ainda nos dias atuais. 

As atuações incendiárias de Xangô não são apenas símbolos de destruição, mas também promessas de transformação estética e filosófica — são atos que, ao consumirem o antigo, possibilitam a emergência de um novo imaginário social e cultural. A luz vibrante, os movimentos das chamas e o calor que exalam dos incêndios, iluminam e criam uma atmosfera de renovação e é nesse clarão ardente que corpos como o meu surgem, reluzentes, reivindicando o nosso lugar na história. Sim, trata-se de uma disputa por narrativas e precisamos repensar os lugares reservados para nós nesta linha cronológica violenta que trata de contar das invasões a partir da perspectiva de quem invadiu e dominou.

Não há dúvidas, o fogo é nosso aliado!  Os incêndios queimam a cultura do roubo, do assalto e do estupro, ancorada pelo racionalismo ocidental e simbolizam o processo de retomada. Seguimos surgindo das cinzas e nos espalhando com a velocidade do vento. O fogo pulsa, treme e se agita, o fogo é um corpo em convulsão. 

Como corpos que reivindicam seu lugar na história, precisamos queimar tudo aquilo que opera contra nós, precisamos queimar a linguagem e operar artisticamente na estética do fogo, aquela que desafia as formas convencionais, que simboliza a purificação, o renascimento e que vibra incandescente a expressão visceral de um corpo-vivo-brasileiro que ultrapassa o discurso daquele que tenta organizar para dominar. 

Somos corpos queimados, transfigurados, corpos-fogueiras,ensinamos e aprendemos diariamente com nosso pacto social, extremamente estratégico e inteligente para nossa continuidade e sobrevivência, feitos entre os povos de Xangô, São João e todas as entidades e divindades que queimam Brasil afora.

Sejamos fogueira em qualquer circunstância, em qualquer contexto, em qualquer lugar.

O fogo é um corpo em convulsão!

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