
Imagem: Vantoen P. Jr.
Impermanência. Sobre a obra de Elísio Pitta.
Por Jhomer Jackson
Dezembro . 2025
Assisti Ipermanência no Teatro do Goethe-Institut Salvador, espaço que potencializou ainda mais a força e a densidade da obra criada pelo bailarino e coreógrafo Elísio Pitta. Natural de Salvador, Pitta retorna ao Brasil após anos de trajetória internacional para celebrar sua criação, reafirmando uma carreira marcada pela resistência, pela excelência e por uma investigação profunda das estéticas negras na dança contemporânea.
A obra se inscreve em diferentes tempos: o agora, o amanhã e o ontem. Desde os primeiros movimentos, fica evidente como Elísio convoca camadas temporais que se cruzam e se chocam. Ipermanência é híbrida, une tecnologia, artes visuais e memória, mantendo vivos os rastros de outros corpos negros dançantes, sobretudo o de Ismael Ivo, cuja partida em 2019 deixou um marco incontornável.
Quando Pitta começa a pintar o chão com tinta vermelha, seu corpo dança como quem tenta regressar no tempo, revisitar feridas e origens. Ao mergulhar os pés nos baldes de tinta e marcar o chão com pegadas, uma imagem poderosa se forma: corpos negros nunca caminham sozinhos. Podemos alterar a direção do nosso passo, mas há pegadas anteriores que testemunham que outros já estiveram ali, resistindo, lutando, sangrando.
As marcas vermelhas se sobrepõem até formar uma paisagem dolorosa que remete à triste realidade de corpos negros caídos no chão, como vimos no Rio de Janeiro e em tantas outras geografias brasileiras. A cena, forte e simbólica, transforma-se em protesto e manifesto, um grito encarnado no corpo que dança.
Perceber essa situação de violência ao assistir à obra me fez questionar o quanto relatamos somente as cenas que vêm à mídia enquanto tantas outras, sobretudo em Salvador, permanecem escondidas. Lembro, por exemplo, da chacina em Fazenda Coutos durante o Carnaval, que mal foi noticiada. Quando o artista inicia com os baldes de tinta vermelha cobertos, sinto como se ele dissesse: “vamos colocar um pano por cima”, assim como acontece quando o foco é apenas a festa da orla. Essa camada encoberta de violência conversa diretamente com a obra; os rastros, para além da simbologia, revelam o manifesto de um território que muito mata, aos poucos, todos os dias.
Em outro momento, ao mergulhar as mãos na tinta, Elísio ativa novas leituras. A imagem me fez lembrar imediatamente a frase de uma música que sempre me atravessou: “quem não tem sangue de preto nas veias deve ter nas mãos”. A obra amarra passado, presente e futuro em um só gesto, evidenciando dores históricas, mas também a força ancestral que insiste em pulsar.
A busca por oxigênio, tantas vezes negado a corpos negros durante a pandemia, emerge em sua expressão como síntese do sufocamento físico, social e histórico. As tintas espalhadas pelo chão evocam ruas tingidas de sangue, memórias de violência e, simultaneamente, de resistência.
Em resumo, Ipermanência é um manifesto vivo. Um chamado às ancestrais, um pedido urgente de respiro, um desejo de pausar o tempo para revisitar o que nos constitui. Na correria dos dias, frequentemente desejamos voltar ao passado; a obra nos lembra que, às vezes, tudo o que precisamos é parar e respirar.