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Imagem criada por IA.

Nas labaredas da palavra FIM.

Por George Neri 
#1 Sociedade da Combustão

Junho . 2025

Parte 01 – Diagnóstico da filosofia sobre o fracasso das imagens clichês

A análise de Gilles Deleuze sobre a imagem-movimento e imagem-tempo nunca foi tão atual. O que vemos hoje é o esgotamento definitivo da imagem-movimento clássica – aquela que organizava o mundo em ações e reações claras, em narrativas com princípio, meio e fim. Os blockbusters contemporâneos ainda tentam reproduzir essa lógica, mas já não conseguem esconder as costuras. Quando assistimos a um filme assim, não vemos personagens, mas funções narrativas ambulantes; não há drama, apenas a inevitabilidade matemática do próximo confronto. 

A análise de Gilles Deleuze sobre o cinema, particularmente em "Cinema 1: A Imagem-Movimento" e "Cinema 2: A Imagem-Tempo", oferece um arcabouço conceitual indispensável para dissecar a crise ontológica que atravessa Hollywood. O que Deleuze identifica como a passagem da imagem-movimento para a imagem-tempo, e a subsequente crise da imagem-ação, não é apenas uma periodização histórica do cinema, mas um diagnóstico da própria relação entre o cinema, o pensamento e a percepção da realidade. Hollywood, como principal motor da imagem-movimento clássica, encontra-se hoje no epicentro dessa crise, lutando para se reinventar em um cenário onde as velhas fórmulas parecem esgotadas e a própria natureza da imagem se tornou instável e fugidia.

A imagem-movimento, característica do cinema clássico americano, organizava-se em torno da ação e da reação, do esquema sensório-motor. As narrativas são lineares, os personagens são objetivos e o mundo  um espaço a ser conquistado ou transformado pela ação. Como Deleuze aponta, e que foi ecoado por Cláudio Ulpiano em suas aulas de filosofia, essa forma cinematográfica pressupunha um espectador capaz de se conectar organicamente com a ação na tela, de antecipar seus desdobramentos e de se identificar com os protagonistas. Os blockbusters contemporâneos, especialmente os do universo dos super-herois (não só eles), ainda tentam, de forma quase desesperada, replicar essa lógica. No entanto, como já dito acima, o que vemos frequentemente são "funções narrativas ambulantes" imersas em um espetáculo que, paradoxalmente, quanto mais busca o realismo visual, mais se afasta de uma experiência humana palpável. A "inevitabilidade matemática do próximo confronto" substitui o drama genuíno, e a ação, por mais espetacular que seja, muitas vezes soa vazia, desconectada de qualquer consequência real ou de um tempo vivido.

É aqui que a crise da imagem-ação, diagnosticada por Deleuze, se manifesta com toda a sua força. O esquema sensório-motor entra em colapso. Os personagens já não sabem como reagir às situações, ou suas ações se tornam erráticas, despropositadas. O elo entre percepção e ação se rompe. Em seu lugar, surge a imagem-tempo. Nela, o tempo deixa de ser subordinado ao movimento e à ação; ele se torna a própria matéria do filme. As situações óticas e sonoras puras, os clichês, os espaços quaisquer que não se conectam mais de forma lógica, tudo isso aponta para um cinema que não busca mais representar uma realidade pré-existente, mas que mergulha na própria opacidade do tempo, nas suas camadas de passado e futuro que coexistem no presente. O espectador é convocado não mais a agir ou reagir, mas a ver e a pensar, a decifrar os signos de um mundo que se tornou ilegível.

Hollywood, em grande medida, resiste a essa passagem para a imagem-tempo, ou a incorpora de forma superficial, como um novo tempero estilístico em narrativas que, no fundo, ainda anseiam pela clareza da imagem-ação. A fragmentação narrativa, os finais ambíguos, os personagens atormentados pela indecisão – tudo isso pode ser visto como sintomas dessa crise, mas raramente como uma exploração radical das potencialidades da imagem-tempo. A indústria do entretenimento, com sua necessidade de produtos facilmente consumíveis e globalmente palatáveis, teme a opacidade, a lentidão e a introspecção que a imagem-tempo frequentemente exige. A Inteligência Artificial, nesse contexto, surge como uma ferramenta que ameaça automatizar ainda mais a produção de imagens-movimento esvaziadas, gerando roteiros e sequências de ação a partir de algoritmos que replicam fórmulas de sucesso, aprofundando a crise em vez de oferecer uma saída.

 

A contribuição de Cláudio Ulpiano, ao traduzir e disseminar o pensamento de Deleuze no Brasil, foi fundamental para que pudéssemos pensar o cinema para além de suas funções narrativas ou de entretenimento. Ulpiano, em suas aulas, enfatizava como Deleuze via o cinema como uma forma de pensamento, uma máquina de produzir conceitos através de imagens e sons. A crise de Hollywood, sob essa ótica, não é uma crise de bilheteria (nunca foi) ou de modelos de negócio; é uma crise de pensamento, uma dificuldade em gerar novas imagens capazes de dar conta da complexidade do mundo contemporâneo. O esgotamento da imagem-ação reflete um esgotamento mais amplo das formas de representação e de engajamento com a realidade. A tarefa, portanto, não é apenas encontrar novas tecnologias ou novos mercados, mas reencontrar a potência do cinema como arte do tempo, como experiência que nos confronta com o intolerável, com o impensável, e que nos força a criar novos modos de ver e de sentir.

Andrei Tarkovski

Andrei Tarkovski

Parte 2 – Hollywood em chamas é mais uma ficção

Muitos filmes excelentes, péssimos, medianos, inócuos também, como uma prateleira de um grande supermercado, por assim dizer, ou um catálogo da Netflix. Taxi Driver, por exemplo, filme do Martin Scorsese foi feito por Hollywood, e quem poderia imaginar? Eu também não. Os filmes de Tarantino, apesar de terem total liberdade e distinção, são frutos de recursos do conglomerado Hollywoodiano. Hollywood é um conglomerado do paraíso capetalista que faz filmes e os exporta. As implicações sobre essa demasiada disseminação da cultura norte-americana é gigantesca. Mark Fisher em seu livro “Realismo Capetalista” (neologismo nosso) analisa a exportação global do cinema de Hollywood como um mecanismo central de disseminação da lógica capitalista. Os filmes produzidos pelos grandes estúdios não são simples produtos culturais, mas poderosos vetores ideológicos que reforçam e naturalizam o sistema econômico vigente. 

 

Hollywood opera como uma fábrica de consenso, onde narrativas aparentemente neutras ou de entretenimento carregam em seu cerne uma visão de mundo específica - aquela que apresenta o capitalismo como o único sistema possível e desejável. O modelo de exportação desses filmes não se limita a uma estratégia comercial, mas constitui uma forma de imperialismo cultural. Ao dominar as telas de cinema em praticamente todos os países, Hollywood estabelece não apenas padrões estéticos e narrativos, mas também modos de pensar e interpretar a realidade. 

 

As histórias contadas pelos filmes hollywoodianos, mesmo quando aparentemente críticas ou contestadoras, permanecem dentro dos limites do imaginável , raramente questionando os fundamentos capitais ou propondo modelos verdadeiramente alternativos. 

 

Esse cinema globalizado produz uma espécie de apagamento das particularidades culturais. As narrativas universais de Hollywood, projetadas para agradar ao maior público possível, acabam por homogeneizar experiências e expectativas. Personagens, conflitos e soluções seguem fórmulas previsíveis que reforçam valores como individualismo, consumismo e a crença no progresso tecnológico como solução para todos os problemas. Essa padronização não apenas empobrece a diversidade cultural, mas também limita o horizonte político, tornando difícil imaginar outros modos de organização social além daqueles representados (e legitimados) pelas produções dominantes. Sobre isso, Glauber Rocha, cineasta brasileiro, disse em seu manifesto Estética da fome de 1985 "A revolução será estética ou não será".  

 

A exportação massiva desse modelo cinematográfico tem um efeito deletério sobre as cinematografias nacionais ao estabelecer um padrão de produção, narrativa e expectativa do público, Hollywood cria uma barreira quase intransponível para produções que queiram seguir caminhos diferentes. Não se trata apenas de competição econômica, mas de uma competição imaginativa - como convencer um público acostumado às fórmulas hollywoodianas a se engajar com narrativas que operam em registros completamente distintos? O resultado é frequentemente a marginalização ou a assimilação das cinematografias nacionais, que são relegadas a nichos ou tentam imitar o modelo dominante, perdendo sua especificidade no processo. 

 

As salas de cinema lotadas para assistir a um blockbuster global não representam verdadeira comunhão cultural, mas sim a simultaneidade de consumo individual. Essa dinâmica é perfeita para o capitalismo tardio, que precisa de consumidores massificados. Levantando dados na WWW podemos verificar em números e porcentagens o que essa disseminação desses filmes hollywoodianos faz com o mercado de cinema ao redor do mundo. No Brasil, por exemplo, os filmes norte-americanos dominam cerca de 80% a 85% das salas de cinema. A bilheteria total do mercado brasileiro em 2023 é de aproximadamente R$2 bilhões, sendo o montante estadunidense R$1,6 bilhões. Em uma análise inversa: Filmes brasileiros nas salas norte-americanas ocupam menos de 1% das salas de cinema. Recordo que no lançamento do filme Barbie (2023) havia uma campanha massacrante, até acarajé rosa era vendido em Salvador.  

 

Apesar de “ainda estarmos aqui” ainda não fomos vistos. 

 

Sobre todas essas questões é preciso levantar também questionamentos sobre se a visibilidade de um filme faz dele existenteinexistente e se precisamos de fato entrar nessa disputa para existir. É notório que não ser visto ou, por exemplo, não ter uma rede social nos tempos atuais soa como não existência. É um paradoxo, existe mas não existe. Seria um: penso mas não existo, respiro mas não existo. Dessa forma outros filmes, filmografias mundiais são relegados à marginalidade, ao mercado de nicho, termo atual para angariar público, filmes quase inexistentes em relação a porcentagem dos dados gerais. Como entrar nessa batalha das curtidas? O que se pode fazer em relação às políticas públicas de fomento ao cinema? Financiar filmes potencialmente visíveis? A visibilidade virou a tônica para a existência de algo?    

 

O ex Ministro e compositor Gilberto Gil foi sintético quando proferiu: “O povo sabe o que quer, mas o povo também quer o que não sabe”. É por aí que passa toda essa questão de devastação simbólica e imagética que o cinema hollywoodiano faz mundo afora. Não à toa, alguns países criaram leis de cota de tela para proteção do mercado de cinema local e mais ainda, a proteção simbólica das culturas autóctones (Um adendo, no Brasil há essa lei mas não é praticada). Poderíamos aproveitar essas leis para aprofundarmos  a experimentação da linguagem e da forma, como tanto pregava Glauber Rocha. O problema do Brasil é tão profundamente educacional que o próprio cineasta tem mais visibilidade fora do Brasil do que internamente. Glauber diagnosticou o País como um projeto falido de colônia.  

 

“Assim, enquanto a América Latina lamenta suas misérias gerais, o interlocutor estrangeiro cultiva o sabor dessa miséria, não como um sintoma trágico, mas apenas como um dado formal em seu campo de interesse. Nem o latino comunica sua verdadeira miséria ao homem “civilizado” nem o homem “civilizado” compreende verdadeiramente a miséria do latino.” - Manifesto Estética da fome.

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  Frame: Terra em transe- Glauber Rocha

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A Desforra de um Estranho – 1957 - Western

Parte 3 – Cinema como verso versus cinema como prosa 


 

 é porque a vida jamais

devolveu aos filmes

o que tinha roubado deles

e porque esquecer-se

do extermínio

faz parte

do extermínio

há quase cinquenta anos

que no breu

o povo das salas escuras

incendeia o imaginário

para aquecer

o real

agora o real se vinga

e reivindica lágrimas de verdade

e sangue de verdade

 

Jean- Luc Godard  em Historia(s) Du cinema

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Je Vous Salue Sarajevo (1993) Jean-Luc Godard

Nas labaredas da palavra "FIM".

Umas das coisas que mais sinto falta nos filmes é a palavra estampada "FIM"


Não sei em que momento esse “efeito” foi cortado das películas/frames. Esse recurso devolvia para o espectador a possibilidade de voltar

para sua vida, mesmo querendo sair dela. Essa fuga da realidade era interrompida, era uma palavra de ordem, FIMDesorientados saiam do espaço diegético do cinema para se tornarem novamente autores da sua própria existência.

 

O 'FIM' era pedagógico como um manual, um livro, uma última folha. Um corte visual nas retinas aturdidas pelas luzes após desfecho experiencial da sala escura.

 

A  impressão que esse "FIM" pode ser ilustrada como uma pergunta, assim como no poema de Hilda Hilst: “Quem és? 


Pergunto ao desejo. Respondeu: lava. Depois pó, depois nada” só cinema. 


A retirada da palavra "Fim"pode ser anunciada como uma mudança substancial  no cinema e consequentemente nas nossas vidas.

 

Parece que tudo agora ficou para o próximo capítulo, como uma novela ou uma série. Mexe com o desejo, o desejo como falta, nunca é preenchido.

 

Viciados, desamparados, loucos por mais uma dose, não existe a crise existencial do Fim, aquela angústia que suscita dúvidas que faz

 

o pensamento rodar  inquieto na poltrona.  Imóvel e infalível como Bruce Lee?

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