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Cinemascopio

Palimpsesto e paspartu: Encontrando os Klebers. 
sobre o filme "O Agente Secreto" 

Por Padmateo

Novembro . 2025

Um frontispício. Um bodyhorror pernambucano? Thriller subsequente? Um cosmo metalinguístico? Cosmopolitismo sotaqueado? Noir no sol tropical? 'O que acabei de ver agora' divide espaço comigo com 'não consigo chorar, mas me dói a cabeça' ao lado do 'tenho melancolia' e só trinta minutos mais tarde conseguirei cantarolar mentalmente "Guerra e Pace, pollo e brace", enquanto tomo um mototáxi e firulo feroz entre os retrovisores de carros, pós-cinema. 

Ao que me parece, aí há, num filme quebra-cabeça, quebradiço, quebradiça-cabeça, todas as peças de um absurdista, Kleber Brasileiro (o que bota dinamite na cabeça do tempo, em línguas tomzísticas). Às vezes sabemos que matéria de absurdista é transformar guerra em pintura selvagem, com grandes pausas, breques, lapsos mnemônicos e silêncios. E sabemos que memória é a tentativa maior de um absurdista. Também, às vezes, sabemos que o que ficou esquecido, os fantasmas e mostrengos da história, permitem o absurdo ser o absurdo. Não se sabe se um personagem espera a morte ou a vida chegar e diante disto a paranoia da espera. Que o Brasil é absurdo. 

 

Não falo sobre maturidade (e nem posso falar disso, nas minhas precárias tentativas de levar o tempo), mas de uma reunião grandiloquente e tecnicamente ajustada de todo tipo de Kleber, que faz deste filme, não só um mapeamento histórico brasileiro, mas da própria trajetória de um diretor, brasileiro. Seus filmes já são um tanto disso, uma grande revisão de seu próprio cinema e das histórias gerais ou o mantra manoélico - "repetir é o dom do estilo". De "Eletrodoméstica" ao "Som ao redor", por exemplo, um ponto agigantado, uma revisão nunca corretiva, mas expansiva, agregadora. "Retratos Fantasmas" nos mordam, nos digam sobre este dom do estilo, da revisão e das arestas que ficaram no backstage e que mostradas, agora, contam uma história, outra, completa. Esses três filmes citados nos mostram como um Kleber nos leva a outro Kleber, num sampler melado da teoria do cinema, da autoparódia e das referências de um espectador. 

 

Não quero, nem de perto, dizer que "O Agente Secreto" serve de box, coletânea_tudo_em_1 e perfil autoarquivístico, mas um estratégico encontro de todas as possíveis reinvenções realizadas, dos Klebers até aqui, para talvez: a) Fugir de si mesmo, tendo a matemática visão de tudo o que fez. Desconhecer o novo que é, com absoluta métrica.  b) Dizer ao espectador, sem querer, que não há certo a esperar e que a invencionice será sua própria poética fixa. c) Ter coragem pra erguer a bandeira da experimentação, ainda que seja rígido (imagino) o manto da expectativa sobre um histórico de sucesso no cinema. d) Fazer cinema livre. e) Ser livre, cinema. Este prêmio de melhor direção em Cannes, então, não brinda apenas este, mas todos os outros filmes mapeados nele. Como não sacar "Vinil Verde" em tons amarelados, diante das fantasmagorias incertas nos suspenses lisérgicos deste filme? Luvas sem corpo e perna sem meia. O cosmopolitismo de "Noite de sexta, manhã de sábado", esses beijos duplos, triplos carpados da saliva de Babel, Angola, Alemanha, Britânia, um telefonema como epicentro das incertezas, da noite como o fim da personagem, da alvorada como novidade. Como não ver "Retratos Fantasmas" no amor ao cinema e a Recife? Nos rolos de fita do Cine São Luiz? Como não parear-se com "O som ao redor" e o jeitinho 'deixando a vida passar na tela' de fazer cinema? Como não desgrudar Kleber da música, desde "Aquarius"? 

Discordo da crítica de Sérgio Alpendre para a Folha Ilustrada (quando não discordo da Folha Ilustrada?), quando diz que "parece filme de estreante, cheio de ideias conflitantes, digressões que fazem o filme perder boa parte de uma possível coesão" ou que o final é "decepcionante" pelo teor "anticlimático". Sobre os exageros narrativos, me lembro de igual forma das duras críticas a Iñárritu, em "Bardo" e me parece que o senso exige uma polidez ou afunilamento, quando uma trajetória já está bem desenhada. Me parece que os críticos exigem o caminho para o menos, que para o mais, ao que reafirmo tudo acima, do quarto parágrafo e ratifico quão grande é a latinoamérica. Sobre o fim, me sinto traída, mas não como em Alpendre, diria, mais cuckold, um fetichismo final melancólico. No fim, sinto que minhas fichas acabam num telefonema longo de um amor intercontinental que conheci há duas horas e não mais ouvirei, ainda lhe faltam algumas perguntas, algumas fofoquinhas indagosas, sobre qual sua sobremesa favorita, por exemplo, ou a primeira vez que descobriu que uma estrela se chamava estrela. 

 

Sinto que, se em Bacurau, saí com um ar heróico interior, como se me pintasse o desejo da revolução, como se vestisse as capas de Angico, aqui fico em silêncio, melancólica, não exatamente pessimista, mas pensando que ainda nos assolam os tubarões. O salto do tempo, o corte seco, no fim do filme, é tão bruto, deixando a anamnese interrompida, que nos leva a crer que o Brasil ainda não acabou. Não há um fim nesse filme e há duas semanas tivemos (mais) uma chacina carioca, com cabeças degoladas e tiros na nuca. O que diria uma cabeça real, a uma perna fictícia? O delegado nos diz, ao ler a manchete dos 91 mortos, no carnaval, que o número está por aumentar. Esta ficção não tem um fim, mas nos deixa o desejo de que o Brasil acabe, na ficção que é. 

 

A cura do pesadelo brasileiro, seja talvez, como em Fernando, encarar de frente os tubarões, não exatamente os de Steven Spielberg, mas os brechtianos, os de dentes fortes - penso antes de tomar o mototáxi na saída do cinema, depois de cantarolar "Guerra e pace, pollo e brace", depois mesmo de pensar o porquê não consigo chorar, de sentir a dor de cabeça, de ver Tânia Maria nos créditos, de pensar que a memória do Brasil não cabe num pendrive, de pensar cinemas como hospitais, nas transmutações do sangue, numa fotografia anticlímax, num filho à espera de seu pai, no pai que não vai, na barreira Brasil, dum filho que esquece. Na firulas da moto, entre um carro e outro, lembro do Paulo Prado, em "Retratos do Brasil" e cochicho baixo dentro do capacete, que me protege da pátria: "numa terra radiosa, vive um povo triste".  

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