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Imagem: Váguiner Braz 

Gestão cultural em perspectiva negra: Caminhos políticos e epistemológicos 

Por Stéfane Souto 
#1 Sociedade da Combustão

Junho . 2025

Palestra realizada no I ENESCULT - 1º Encontro Nacional da Escola Solano Trindade de Formação e Qualificação Artística, Técnica e Cultural - na cidade de Santo Amaro (BA) entre os dias 13 e 16 de maio de 2025.

 

Deixe-me começar me apresentando: eu sou gestora cultural e me tornei pesquisadora com o intuito de perseguir algumas inquietações nascidas no exercício profissional da Gestão Cultural.

Prestes a completar minha primeira década como profissional da cultura, entender como a gestão cultural podia se posicionar como agente de transformação social era uma questão que me mobilizava profundamente.

Como ir além da função técnica, a chamada administração do existente, das situações e condições que estão dadas, para alcançar a administração do (im)possível, ou seja, aquilo que está no campo do porvir, do devir, do vir a ser. E muito além do como, por que?

 

Notem que talvez a palavra possível, como é empregada pelo Victor Vich, autor peruano que tece essa elaboração, fosse suficiente para dar conta da ideia de cuidado do porvir como responsabilidade da gestão cultural, este campo mobilizador de sentidos, criador de futuros. Mas o possível não alcança os corpos dissidentes, as existências marginais, as vidas não-desejadas, seja em termos de gênero, classe, raça, orientação sexual, neurodiversidade, condição física ou qualquer outra avenida identitária que se encontre nessa encruzilhada. 

Para essas existências, o possível representa uma fronteira limitante: até onde ir, o que se pode falar, de que forma ser, onde é permitido estar - dentro dos limites, dentro das possibilidades, dentro das contingências. Para corpos dissidentes como o meu, a existência plena só pode ser verdadeiramente experienciada quando cruzamos a fronteira da possibilidade, rumo ao que é posto como impossível para nós.

 

Então, voltando às perguntas, como a gestão cultural - enquanto campo estrategicamente posicionado entre a cultura em seu sentido simbólico e a cultura em seu sentido sistêmico - pode e deve se implicar, se comprometer, se engajar com a transformação social, no sentido de produzir vida para essas formas de existir, ser e estar? 

Antes de acionar a perspectiva negra nessa posição do como, quero voltar algumas casas para entender o porquê. Por que a gestão cultural deve assumir esse compromisso como seu?

Vocês concordarão comigo quando penso na cultura como campo - não só de produção simbólica, mas, sobretudo nos dias atuais - das disputas travadas no âmbito simbólico. No campo da cultura estão dispostas as práticas e formações discursivas, sejam elas progressistas ou conservadoras, colonialistas ou contrahegemônicas, e é através do confronto entre esses diferentes discursos que são organizadas, reorganizadas e desorganizadas as relações de poder

Ora, se as relações de poder estão profundamente imbricadas com o campo da cultura, e a gestão cultural é o braço operacional desse campo, como a gestão poderia estar dissociada disso? Não seria a pessoa gestora cultural, em diferentes escalas, do micro ao macro, uma operadora do poder? 

Bem, nesse ponto, começamos a entender que, subordinada a diferentes disputas ideológicas e historicamente apropriada pelos grupos hegemônicos para o exercício e a consolidação simbólica do seu poder, para a cultura, o conforto da neutralidade não é uma possibilidade. Ao contrário, o campo da cultura é, desde que o mundo é mundo, naturalmente imbricado nas dinâmicas sociais, sendo parte basilar e essencial na formação e regulação destas. A cultura ocupa posição de grande importância no jogo político e nas relações humanas como um todo, o que faz de si uma área central, portanto tática e estratégica.

A atuação de uma pessoa profissional da gestão cultural pode corroborar com a manutenção de uma estrutura social hegemônica ou insurgir-se contra ela. Não há meio caminho, nesse sentido. Partindo do pressuposto de que temos como horizonte comum uma gestão da cultura engajada, comprometida com a transformação social, estou aqui para defender que este seja um trabalho, antes de tudo, insurgente, transgressor, negacionista aos limites da possibilidade, e este tipo de sacudimento e reencantamento do mundo não pode ser operado com distanciamento, sem entrega de corpo, mente e espírito. 

Mas vamos olhar para o nosso repertório enquanto gestores e gestoras culturais, vamos olhar para nossas grades curriculares, para nossas referências bibliográficas, para nossas instituições de referência. Quais delas nos ensinam e estimulam a nos posicionar radicalmente enquanto agentes de transformação nas nossas práticas profissionais, mobilizando e colocando pra jogo nossas visões de mundo, nossas identidades coletivas, nossos corpos-políticos? 

Talvez este já não seja o cenário de hoje, mas quando essa pergunta se instaurou para mim, eu entendi que seria preciso deslocar o olhar das referências habituais, canônicas do campo da cultura e da gestão cultural. Eu olhei ao meu redor com sede e vontade de encontrar fontes outras de conhecimento que pudessem informar novos sentidos para a minha prática enquanto gestora cultural, e, nessa busca, que estava mais perto do que eu imaginava, encontrei a produção cultural negra.

A produção cultural negra no Brasil - e aqui estou falando para além da produção de bens e serviços artísticos ou culturais, mas da produção de sentido, a própria fabricação da cultura no seu sentido antropológico - está profundamente assentada na ideia de aquilombamento. 

Ou seja, na ideia de reproduzir a tecnologia ancestral do quilombo nas práticas e dinâmicas culturais, tal qual Beatriz Nascimento sintetizou quando escreveu sobre o sentido simbólico do quilombo e a permanência desse sentido no imaginário da população negra brasileira, mesmo após a abolição da escravidão legal. 

São três as fases que estruturam o aquilombamento enquanto tecnologia social ancestral. A primeira delas é a fuga, que é o momento do planejamento, da organização e da própria ação de romper - física e simbolicamente - com a dominação opressora, em direção a outro território, outra forma de existir, o próprio impossível. 

A tecnologia do aquilombamento compreende também a luta, ou seja, o uso desse território para a defesa e proteção das formas de existir conquistadas. E, por fim, mas não necessariamente nessa ordem, compreende a paz, a “Paz Quilombola”, como nomeia Beatriz Nascimento, que corresponde ao momento de homeostase do quilombo, o período entre a fuga e a luta durante o qual a comunidade se relaciona, se desenvolve, cultiva as condições e experimenta a impossibilidade de viver plenamente. 

Eu gosto de pensar que a gestão cultural negra, ou seja, a operação dos bens, valores, saberes e tradições dessa população em específico, trabalha, nos dias de hoje, no sentido de recriar e promover a paz quilombola, criando espaços, por meio da arte e da cultura, para que possamos nos enxergar e nos fortalecer enquanto comunidade, e essa é uma política insurgente de gestão cultural, à medida que cria possibilidades de vida, à revelia de uma sociedade que promove um extermínio sistemático contra essa população, tanto material quanto simbolicamente. 

Mobilizada por essas inquietações e urgências, eu desenvolvi uma dissertação de mestrado que investiga o aquilombamento como referencial possível para uma gestão cultural insurgente, partindo da experiência de três grupos de Teatro Negro da Bahia para entender as imbricações entre atuação política e mobilização de sentidos no campo da gestão cultural. 

Um pouco mais tarde, fui convidada pelo Itaú Cultural a expandir essa pesquisa através de um mapeamento de dimensão nacional, compreendendo também iniciativas indígenas, o que gerou o Mapa Aldeias e Aquilombamentos Culturais. Nessa oportunidade, foi possível identificar alguns dos modos de fazer das aldeias e aquilombamentos culturais, gerando um vocabulário comum a essas experiências. 

Não faltam exemplos de aquilombamentos culturais na história da nossa produção cultural. Podemos citar o Teatro Experimental do Negro e o Bando de Teatro Olodum, no âmbito das artes cênicas, e ainda os blocos afro, as escolas de samba, os maracatus, os reisados. Podemos citar a Batekoo e o Festival Afropunk, por exemplo. Podemos e devemos citar, celebrar e reverenciar o Bembé do Mercado. Das manifestações tradicionais da cultura popular ao empreendedorismo cultural contemporâneo, passando pelas linguagens artísticas em todas as suas fases e intersecções, a gestão cultural negra se faz presente, demarcando um posicionamento tanto poético quanto político. 

 

Isso acontece porque a gestão cultural é um trabalho que se realiza no processo, e seu tempo é o do gerúndio: atravessando, vivenciando, cultivando e gerando. Ocupar-se dela é emprenhar-se de um devir. A gestão cultural negra percebeu isso desde cedo.

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