top of page
Céu em Si_fotos por Renata Duarte_009 (1).jpg

Imagem: Espetáculo "Céu em Si" de Daniela Galdino, por Renata Duarte

Entre Céus e Águas: A Cartohidrografia das Corpas e o Céu em Si 

Por Alzyr Brasileiro 

#1 Sociedade da Combustão 

Julho. 2025 

Vivemos em uma sociedade em combustão. As chamas não são apenas simbólicas — são concretas e cotidianas. Elas ardem nas violências estruturais, no racismo que marginaliza e mata, na LGBTQIA+fobia que e mantém, ainda, o ranking, pela 15ª vez, de país que mais mata pessoas LGBTQIA+, , no capacitismo que invisibiliza e na misoginia que subjuga. Vivemos uma era de incêndios — da corpa das florestas, da terra, da memória, também da evaporação das águas e do degelo dos polos — onde existir plenamente, é um ato de resistência. É neste cenário em brasa que se entrelaça a performance Céu em si, de Daniela Galdino, e a Pedagogia da Cartohidrografia das Corpas, como práticas que não apenas denunciam o colapso, mas constroem mundos a partir das cinzas.

O conceito de Cartohidrografia se configura como base teórico-poética dessa travessia. A cartografia, compreendida como a representação das características geográficas da Terra, e a hidrografia, como o estudo das águas, se fundem aqui de maneira criativa e política. A Cartohidrografia das Corpas é uma expressão autoral que visa reconhecer e visibilizar corpas T+, corpas cis dissidentes e marginalizadas que habitam e produzem arte na beira do rio, no sertão, no limite entre o visível e o silenciado. Essa metodologia não apenas mapeia presenças, mas as celebram e as tornam parte de uma afetividade aquática. Propõe a corpa como um meio cartográfico, sensível, político e artístico, fundindo territórios hídricos, memórias e resistências. Rompe fronteiras de identidade fixas e reconhece a pluralidade das existências que performam sua arte a partir das margens. A pedagogia aqui é do fluxo, da correnteza, do que escapa e resiste, mesmo sendo canalizado, barrado, violentado. 

A performance da artista Galdino nos convida a olhar para o céu não como fuga, mas como travessia íntima, onde a dor se transforma em gesto e palavra. O céu não é mais inalcançável — ele pulsa dentro das corpas que resistem. Em um país que insiste em apagar corpos negros, trans, com deficiência, corpos não cisheteronormativos masculinos, Céu em si afirma a interioridade como território político. Nesse gesto, ecoa profundamente o Pilar 1 da Cartohidrografia: “Reapropriação e Ressignificação das Corpas”, que em cena sãomais que resistência — a reinvenção simbólica diante das chamas sociais que tentam apagá-la.

Se o fogo consome o centro, às margens irrigam. E é das margens do Velho Chico que brotam a pedagogia da Cartohidrografia, uma pedagogia que escorre entre fissuras, atravessando a terra rachada com vozes de água. Essa pedagogia da beira propõe a ocupação radical dos espaços da arte por corpas que foram, historicamente, excluídas. O Pilar 2: “Ocupação dos Espaços Artísticos e Culturais”, se materializa em Céu em si, onde Galdino — mulher, nordestina, artista — ocupa o palco como um campo de disputa e reinvenção. O palco, que por muitas vezes foi o lugar da branquitude normativa e exclusão, torna-se sagrado pela presença insurgente de quem historicamente foi empurrada para fora da cena.

Há também, nessa combustão, uma tentativa constante de calar as histórias que não se encaixam nos discursos dominantes. O Pilar 5: “Reconhecimento das Histórias como Arte”, rompe essa lógica. Céu em si não nos apresenta uma narrativa de vitimização, apesar do enfrentamento poético, à brutal realidade do país. A performance reescreve essa narrativa, elevando a vida vivida à condição de obra. A dor, aqui, é matéria — mas não é prisão. É combustível de criação, é argila simbólica para a construção de novos imaginários.

E na combustão final, surge a centelha da Transgressão Corporal, o Pilar 6. O corpo que performa Céu em si é o mesmo que emerge das águas do São Francisco — um corpo que insiste em ser, mesmo quando tudo ao redor clama por sua extinção. Esse corpo transgressor atravessa os “cistemas” de opressão com sua carne, sua estética e sua política. Ele rasga as normas, desvia dos rótulos, queima e renasce. É corpo-ponte entre o invisível e o visível, entre o silenciamento e a arte, entre a morte simbólica e a permanência afetiva. Ambas — performance e pedagogia — compartilham a urgência de transbordar. Em uma sociedade em combustão, onde direitos são queimados, corpos são descartados e histórias são apagadas, Céu em si e a Cartohidrografia das Corpas reacendem o que se quer apagar. Elas afirmam: toda corpa que insiste em viver merece o céu, merece o palco, merece a vida. Entre o céu em si e o rio em nós, seguimos: queimando e transbordando. Porque mesmo em meio às cinzas, há sempre uma nascente.

Fotografia do espetáculo Céu em Si de Daniela Galdino - Por Renata Duarte

bottom of page